falo de ti, cuidavas que não?


estou-te a ver

estou-te a ver

há os que escrevem sobre
a história do que foi
e nada fazem
deixam livros

há os mais simples
os que fazem coisas
sobre as quais
os outros escreverão
deixam o nome

e tu
tu passas ao lado de ambos
e não és nada
nada

ouviste?

mais ao fundo já tu desapareceste

mais ao fundo já tu desapareceste

(dunas da torreira)

os moliceiros têm vela (35)


abraço, ti zé rebeço

e à vara o moliceiro vai varar na praia

e à vara que o vento ……

conversa a dois

– tá descalço, ti zé?

– não, cravo, trago os sapatos que a minha mãe me deu quando nasci

um homem grande, um homem bom, um homem com coração de oiro, um amigo

filho da terra, irmão da ria, puro e simples como poucos

abraço, ti zé

parados num tempo sem vento

parados num tempo sem vento

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (34)


do medo

são moliceiros

são moliceiros

o medo é grande nas terras
piquenas
nas terras do tamanho das
gentes delas

o medo senta-se à mesa
do café
pede uma bica um copo
de água
o jornal da mesa do lado
se vago

o medo fuma um cigarro

o medo invadiu as casas
cegou muitos
paralisou alguns
calou quase todos
uns porque sim
outros porque também

o medo detém meios
oferece lugares
distribui subsídios
piquenos trabalhos
alguns favores
o medo é bom senhor

o medo passeia a gravata
pelas ruas no carro de serviço
o medo sorri pela janela
acena a quem passa
o medo é educado

o medo tem a sua corte
e o silêncio dos restantes

o medo inundou as ruas
transbordou para as praças

o medo
parou à porta do cemitério
porque depressa concluiu

que chegara tarde

os cisnes da ria num céu de sonho

os cisnes da ria num céu de sonho

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2014)

postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)

postais da ria (62)


gente da torreira

da ria, naturalmente

da ria, naturalmente

crescem com a ria
conhecem cedo o sal do pão
que comem

há um sorriso para a fotografia
há trabalho que se confunde com recreio
só vais para a ria se tiveres boas notas

não é trabalho infantil
é começar cedo a viver a ria
sem saber de amanhã

é a gente da torreira

ahcravo_DSC_1614_fim de dia

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (32)


dos dias

sucedem-se no tempo e ...

sucedem-se no tempo e …

amanhã outro dia será
comigo ou sem
o tempo seguirá o seu curso
sereno e ridente

uma flor abrirá algures
as pétalas ao sol
uma criança beijará a mãe
e muitos terão partido

hoje sou e canto

e o vento?

e o vento?

(ria de aveiro; regata da ria; 2011)