companha do marco (2009)
20 de junho de 2009
o mar estava manso e os mais temerosos arriscaram uma saída.
de entre todos o herói da festa foi o rui – de luva erguida.
será este “o dia em que o rui foi ao mar”
20 de junho de 2009
o mar estava manso e os mais temerosos arriscaram uma saída.
de entre todos o herói da festa foi o rui – de luva erguida.
será este “o dia em que o rui foi ao mar”
chega o saco à praia
com ele a esperança
de um bom lanço
farto de carapau
paga de tantas horas
de suor duas vezes salgado
chega o saco à praia
mas a mais das vezes
só rede
que peixe
as traineiras de noite
tomaram de assalto
invasoras da costa onde
outrora piratas
também
é este o momento
em que o mar
pagará ou não
a quem no mar tentou
mais uma vez
ganhar o pão
(torreira; 2007)
não têm outro relógio que as marés outra companhia que a da mulher filho ou parente que esta arte não dá para companheiros são os últimos pescadores da ria têm todas as idades começam novos orgulhosos da primeira bateira e acabam quando já não correm o mundo em busca do pão que a ria já não dá encontra-los no bacalhau no arrasto em todo o mundo da islândia à terra do fogo são senhores do mar é esta a gente da laguna daqui partem e são mestres aqui chegam para serem esburgados pelos intermediários -isto não é um poema é a vida do pescador-
(torreira)

(torreira; 2007) – zé pato+arrais zé murta
verga-se o bordão ao peso do rolo não se vergam os homens que mais são de areia se faz o caminho do mar a companha é isto o sermos todos o mesmo e sabermos quando um mesmo é mais é esse o arrais não é mais só por ser é mais porque em tudo é da voz às mãos dos olhos ao corpo ele é a companha madrugada cedo a quotidiana leitura do mar o saber se há ou não mar de largar tarefa sua e sofrida ombros mais largos não apenas ombros de arrais
pesadas passadas
enterram na areia
mais que os pés
enterram-me aqui
que este é o caminho
o meu caminho
o bordão
a que tantos se agarram
para andar
prende-me os passos
amarra-me ao chão
arranca-me os braços
sou
esta força escondida
no mais dentro de mim
este destino de ter aqui
um caminho
peso-me de mar
(torreira, 2007)
escuto o mar
e oiço-me menina
não esta mulher cansada
de tantos anos
sofridos
revejo tudo de novo
o alfredo, canalha ainda
aos meus pés
enquanto alava as cordas
o peixe
no saco a caminho da barraca
onde umas brasas
e broa
estou cansada
de tanta areia percorrida
tanta carga sobre os meus ombros
de mulher/homem aqui
o alfredo
já é homem
ajuda na companha e sorri
faz-me feliz vê-lo
é quando o perco de vista
e só vejo areia e mar
que tudo me pesa
a faina é dura
mais dura porém a fome
que ela mata
(torreira, 2009)