cipriano brandão
há quantos anos amigo?
contigo aprendi a estudar o mar. quando te vi a olhá-lo tão fixamente pensei que estavas a rezar, mas a estavas a estudar o
ritmo das ondas.
tinhas então o cabelo negro.
há quantos anos cipriano?
(torreira)
o momento
o exacto instante em que o sol
se deita sobre as ondas
jamais o fim
o mar permanece e aconchega
as ondas abraçam o sol e deitam-se
cansado do seu percurso
diurno
a tudo isto assiste
de braços abertos
silenciosamente cúmplice o barco
o sol encontra nas ondas
o regaço para tanto andar
assim eu
voltarei ao mar
nada temos a ver convosco
para nada queremos os vossos padrões de vida
odiamos fatos e gravatas e passeios dominicais com a família
nas páginas amarelas do vosso dia a dia
nunca encontraremos o indicativo para o nosso futuro
nada temos a ver convosco
há um abismo imenso a separar-nos
queremos ser nós
não queremos os vossos conselhos nem a vossa sabedoria
guardai-os para aqueles que, sendo novos, são como vós
e no lugar do cérebro têm uma lata de peixe congelado
nada temos a ver convosco
o vosso paraíso é para nós sufocação e túmulo
detestamos o vosso subir na vida
queremos subir, sim, mas para mais perto da natureza
sermos límpidos e claros
como as antemanhãs no alto da serra
deixem-nos em paz
que nos nada queremos de vós