dos dias aqui
palavra a palavra
construo os dias
o meu tempo é duro
afogo no betão
urbanas angústias
com navegar no asfalto?
(murtosa; regata do bico; 2013)
dia da poesia
alguns sabiam as letras
de ouvido
o nome seriam poucos
a escrevê-lo
foram poetas e partiram
sem cadernos
com as mãos e a vontade
de vingar
onde oportunidades houvesse
homens e mulheres
crianças ainda
calejados de fome
com sede de futuro
escreveram o nome
da terra negada
na geografia do mundo
é deles o poema sem palavras
escrito em línguas desconhecidas
que fizeram suas
é deles o dia
são eles a poesia
do sorriso
solares os dias em que sorris
renascido de um tempo parado
és-me de novo não sei por
quanto tempo mais
sou inteiro por instantes
(ria de aveiro; regata da ria; 2013)
no moliceiro “dos netos”, o ti abílio e o zé rebelo
um nós novo
traz-me tudo menos
esse olhar perdido
onde já nada navega
senão o por dentro
de coisa nenhuma
o vazio é um caminho
não o inicies
empresta-me os teus olhos
deixa que os leve até onde
fomos sol e sombra
ombro a ombro os dias galgados
na cumplicidade concebida
de afectos
o vazio é um não lugar
o braço que te abraça
suporta o peso insuportável
dos anos sobre ti
és tu e eu
um nós diverso
em busca de
(ria de aveiro; regata da ria; 2009)