os moliceiros têm vela (81)


dia da poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

alguns sabiam as letras
de ouvido
o nome seriam poucos
a escrevê-lo

foram poetas e partiram
sem cadernos
com as mãos e a vontade
de vingar
onde oportunidades houvesse

homens e mulheres
crianças ainda
calejados de fome
com sede de futuro

escreveram o nome
da terra negada
na geografia do mundo

é deles o poema sem palavras
escrito em línguas desconhecidas
que fizeram suas

é deles o dia
são eles a poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (78)


do sorriso

no moliceiro "dos netos" o ti abílio e o ré rebelo (seu pupilo)

no moliceiro “dos netos” o ti abílio e o zé rebelo (seu pupilo), a chegarem a aveiro

solares os dias em que sorris
renascido de um tempo parado

és-me de novo não sei por
quanto tempo mais

sou inteiro por instantes

mestre e pupilo, em lição de velejar

mestre e pupilo, em lição de velejar

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

no moliceiro “dos netos”, o ti abílio e o zé rebelo

os moliceiros têm vela (77)


dos gatos

em bando vogam

em bando vogam

à janela o gato sábio
lambe os bigodes fartos
queda-se imóvel
no gastar dos dias

sereno constrói o salto
imagina a presa sem pressa
espera espera espera

crítico
não desespera
o gato

gosto do laborioso rato

toda a beleza é aqui

toda a beleza é aqui

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (75)


um nós novo

nós

nós

traz-me tudo menos
esse olhar perdido
onde já nada navega
senão o por dentro
de coisa nenhuma

o vazio é um caminho
não o inicies

empresta-me os teus olhos
deixa que os leve até onde
fomos sol e sombra
ombro a ombro os dias galgados
na cumplicidade concebida
de afectos

o vazio é um não lugar

o braço que te abraça
suporta o peso insuportável
dos anos sobre ti

és tu e eu
um nós diverso
em busca de

nós sempre

nós sempre

(ria de aveiro; regata da ria; 2009)

os moliceiros têm vela (74)


ausente

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico bw

o rosto parado
a expressão ausente
o corpo prisão

resta o que resta
não será muito nem pouco
tão só o que ainda

perdido o sorriso
na voz treme a solidão
ouve-se o medo

é ensurdecedor

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (73)


esperar

ahcravo_DSC_2039 bw

aprender o tempo
no contar pelos dedos

lento muito lento
o movimento

parados os olhos
imóvel o rosto
sem expressão
esperar esperar
não há primavera
nem andorinhas

aprender o corpo
no contar do tempo

o movimento
lento muito lento
até que parado

ahcravo_DSC_2039

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)