os moliceiros têm vela (45)


ora batatas

vai haver vento

vai haver vento

cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada

falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal

servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos

ora batatas para tais palavras

houvesse vento em terra ...

houvesse vento em terra …

(murtosa; regata do bico; 2010)

modernices murtoseiras e coincidências


da esq. para a direita: manue silva; manuel vieira e zé rito

da esq. para a direita: manuel silva; manuel vieira e zé rito

depois de ter escrito, ontem dia 20 de janeiro de 2015, que na murtosa se deixavam morrer moliceiros – https://ahcravo.wordpress.com/2015/01/20/modernices-murtoseiras/ – e de sobre esta afirmação ter havido, no facebook, quem ironizasse; numa conversa com o Zé Pedro, em torno de comentários a uma foto da regata da ria de 2014, o zé diz-me que os moliceiros do ti manuel vieira (manel valas) estavam vendidos para o turismo de aveiro.

os moliceiros “manuel silva” e “manuel vieira” são mais dois que deixam a vela e vão passar a amputados nos canais de aveiro.

ao longo dos últimos anos têm vindo a ser vendidos moliceiros para o turismo de aveiro, porque os donos não têm capacidade financeira para os manter, nem quem na terra na manda lhes dá qualquer apoio, para além dos prémios das regatas, que não chegam para os custos de manutenção.

já uma vez citei almada negreiros, quando escreve que esta é  “A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! “ . se substituirmos “Camões” por “ moliceiros”,  fica um retrato perfeito da região de aveiro “A pátria onde os moliceiros morreram de fome e onde todos enchem a barriga de moliceiros

o tempo passa, mudam os regimes e os mandantes, mas as mentalidades e a mediocridade mantêm-se.

já vi queimar e morrer muito barco nesta terra que se publicita como sendo a “ ria de aveiro um mar experiências” . como diziam os mais antigos, com que aprendi a ser homem, “haja decência senhores, haja decência”

de cabeça e alguns apontamentos aqui ficam alguns dados sobre moliceiros, provavelmente incompletos, a aguardar mais contributos e eventuais correcções de quem tenha mais informação.

Moliceiros tradicionais existentes em 2014

Murtosa

A. Rendeiro
Dos Netos
CM Murtosa
Sermar
Eco Moliceiro

Torreira

Manuel Silva
Zé Rito
Manuel Vieira
Cristina e Sara

Pardilhó

O Amador

Ovar

Pequenito (o único que tem apoio anula da autarquia)

Costa Nova

Pardilhoense (não participa activamente nas regatas, mas acompanha-as)
Marnoto
Inobador

Ílhavo

S. Salvador (não saiu do cais por falta de verba)
Moliceiros vendidos para turismo nos últimos 5 anos

Murtosa

Doroteia Verónica
José António
José Miguel
Reinaldo Belo

Torreira

Ricardo e Sérgio

Ovar

Lameirense
a realidade é esta, o mais podem ser sorrisos irónicos, silêncios cúmplices ou lágrimas de crocodilo, mas são só isso.

para certa gente, o futuro é o esquecimento do passado, infelizes, não sabem que assim se negam a si mesmos e ao próprio futuro.

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(torreira; estaleiro do mestre zé rito)

os moliceiros têm vela (44)


renasço quando sonho

navegam ainda em mim

navegam ainda em mim

vieram por todos os caminhos
líquidos da memória
voavam no amanhecer do tempo
no mais fundo da memória

abracei-os como se irmãos
perdidos há muito
em terra minha deixada

renasço quando os sonho

o sonho não morreu

o sonho não morreu

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (43)


traquinas

um sorriso de criança

um sorriso de criança

trago nos olhos
um sorriso de criança

uma fisga na mão
um papagaio de papel

uma bola de sabão
um carrinho de madeira

umas caricas oferecidas
um jogo por acabar

dentro de mim
nasce uma pergunta
traquina

nunca mais cresces?

um jogo por acabar

um jogo por acabar

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (41)


fruto e semente

o tempo

o tempo

como tudo é frágil
e se quebra
por entre o fragor
dos dias

de água a memória
escorre
de pedra fora e não

dou-vos palavras
palavras palavras
e não digo nada
sinto tudo como se

somos
fruto e semente

toda a beleza é o instante em que

toda a beleza é o instante em que

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (40)


de bico amarelo

cá te espero

cá te espero

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

o silêncio
quando necessários
os braços

ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

de bico amarelo
na armadilha
os embaraços

pássaros muitos

que ria sem eles?

que ria sem eles?

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (39)


dos mandantes

do mesmo tamanho, só a distância ilude

do mesmo tamanho, só a distância ilude

terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes

são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão

são apenas
mandantes por mandato
mandatados

velas ao vento e todos pelo mesmo

velas ao vento e todos pelo mesmo

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)