os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (26)


és tu

(a muitos amigos)

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como

erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras

erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”

escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais

és tu

ahcravo_DSC_1013
(torreira; regata s.paio; 2013)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (24)


MOLICEIROS SEMPRE!

a caminho do novo ano

a caminho do novo ano

quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador

sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo

nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada

nada mais
nada

um ano novo a colorir de moliceiros

um ano novo a colorir de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

FELIZ ANO NOVO

os moliceiros têm vela (23)


como eu gosto deles

velas ao vento, pouco, deslizam

velas ao vento, pouco, deslizam

o seu lugar favorito
é a janela virada ao sol
atentos observam

de tudo bebem e se fazem
são
o repositório por excelência

rígido o corpo atento
olhos abertos
buscam a presa do dia

da janela registam
um deslize
um passo em falso
um quase erro

súbito saltam e

falo dos gatos

pinto-os e são mais meus

pinto-os e são mais meus

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2012)

os moliceiros têm vela (22)


dos amigos

como se num baile

como se num baile

sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem

uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto

atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber

joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti

há mais caminhos que pedras

dancem e brilhem os olhos de tanto

dancem e brilhem os olhos de tanto

(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)

pinturas de moliceiros


https://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=https://rd3.videos.sapo.pt/2ILGiVDGdZYpeeQLqJdH/mov/1&autoStart=1

 

um excelente vídeo registado pela “Memória Média”, em que a profª clara sarmento, cuja tese de doutoramento foi, exactamente sobre a pintura dos painéis de moliceiros, elaborando mesmo uma lista de tipos de decorações.