os moliceiros têm vela (20)


sabe-te

o marnoto persegue o manuel da silva

o marnoto persegue o manuel da silva

na concha das mãos
coisa pouca
quanto baste para
matar a sede

não tem dono a água
deu-a a rocha
e quedou-se silenciosa

os nomes são letras
mãos dadas
palavras

na concha das mãos
um barco
oferta de um tempo
de ninguém
porque de todos

ilusão o seres dono
tão breve é o seres aqui
depositário apenas
da memória comum

sabe-te saberás

é de norte o vento, são moliceiros

é de norte o vento, são moliceiros

(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

os moliceiros têm vela (19)


amor longe

só o vento os leva, na memória ficam

só o vento os leva, na memória ficam

é de longe
que a terra se sente
mais íntima
mais nossa

não estranhes pois
este amor
que se estende por um tempo
onde não habitas
porque

foste dos que ficaram

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

(ria de aveiro; murtosa; bico)

os moliceiros têm vela (18)


haja janelas

há um barco que nos espera para partir

há um barco que nos espera para partir

falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu

é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais

solidão não é estar só
é estar mal acompanhado

falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer

haja janelas

não partas antes de mim

não partas antes de mim

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (17)


os moliceiros têm vela (17)

voa meu barco voa

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal

voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais

de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento

deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles

ahcravo_DSC_5881_sermar zé papa-lamas
(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

os moliceiros têm vela (16)


da fotografia

a dança dos cisnes

a dança dos cisnes

onde andam agora os que
da terra a memória serão
de tantos olhares gravados

máquinas muitas prontas
a registar a festa da ria
o bailado dos moliceiros
voando como nunca
porque  sem carga

onde andam agora as imagens
roubadas ao tempo
para nos serem ofertadas um dia?

fotografar não é
procurar a beleza e guardá-la
para concursos negócio ou
gozo próprio narcísico

fotografar é um comprometimento
com o sentir de um tempo
com as gentes que nos olharam e pensaram

amanhã vou lembrar-me de hoje

enchem-se os olhos e a memória sorri

enchem-se os olhos e a memória sorri

(murtosa;regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (15)


a palavra e o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça

as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem

amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje

herança amarga
a tua

a palavra enche o tempo e o espaço

a palavra enche o tempo e o espaço

(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)

os moliceiros têm vela (14)


era uma vez …… num país longe da murtosa

o a rendeiro a mostrar o que vale

o a rendeiro a mostrar o que vale

avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá

avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros

então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?

mostra-me uma foto de um moliceiro

tão lindo!

sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta

olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:

o moliceiro

avô, eu gosto muito de ti
mas ……

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)

porque vai haver um amanhã

os moliceiros têm vela (13)


regata da ria 2014, uma análise

o bando diminui de ano para ano

o bando diminui de ano para ano

realizou-se no dia 29 de junho, a regata anula de moliceiros entre a torreira e aveiro, promovida pela “Comunidade Intermunicipal da Ria de Aveiro”.

os prémios definidos pela organização foram os seguintes:

1- participação: 600 euros para todos os barcos (grandes e pequenos)

2- pinturas:  300; 250; 200;150;100 (consoante a classificação)

3 -regata : 150; 100; 50 (por ordem de chegada)

ou seja, um moliceiro que participasse, ganhasse o prémio de pintura e chegasse em primeiro lugar, fazia o pleno dos prémios e ganhava 1050 euros.

se pensarmos que estamos em dezembro e ainda ninguém, que seu saiba, recebeu alguma coisa, o Manuel Antão que o diga, tendo ainda em conta que, dando o dono do barco a mão de obra, para pagar matérias primas e pagar a pintura, a despesa ronda os 1.500 euros por barco…. se pensarmos nisto, a regata é financiada pelos donos dos barcos e aproveitada pelos do costume.

barcos que participaram, posição à chegada e tripulação:

1º A. Rendeiro

tripulação : José Rendeiro, Rebeço,  (74 anos); Marco Silva (38) e Manuel Antão (63)

2º Dos Netos

tripulação: Abílio Fonseca, Carteirista (76 anos); José Rebelo, Papa-lamas (30); António Salgado (59 anos)

3º Manuel Silva

tripulação: Zé Pedro (14 anos); João Rodrigues (26 anos); Rui Rodrigues, Índio/Russo (23 anos)

4º Zé Rito

tripulação: José Vieira, Rito (58 anos); Manuel Vieira (50 anos)

5º C. M. Murtosa

tripulação: José Caneira (76 anos); José Formigo (60 anos)

sem prémio de chegada

Manuel Vieira

tripulação: Manuel Vieira, Valas (59); Carlos (52)

Marnoto

tripulação; Domingos Marnoto (62 anos); Amadeu Ferreira (51 anos); António Duarte (61 anos)

O Amador

tripulação: Felisberto Amador, Caçoilo (55 anos); Sérgio Amador (42 anos)

Barcos pequenos (9 metros)

Pequenito

tripulação: Manuel Valente, Vareiro (61 anos); Soares (46 anos); Pedro Reis (33 anos)

Cristina e Sara

tripulação: Virgílio Gonçalves (76 anos); Nelson Lopes (35 anos)

vejam as idades dos tripulantes e ficam com uma ideia do futuro das regatas, se nada for feito para motivar os mais jovens.

era uma vez as regatas da ria . . . . , muito em breve

só se dermos as mãos, todos

só se dermos as mãos, todos

(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

os moliceiros têm vela (12) – a propósito


para onde uns vão, já outros de lá regressam

para onde uns vão, já outros de lá regressam

“já vi fracassar o que era mais razoável
e triunfar o que era mais absurdo”

J. W. Goethe

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

(ria de aveiro; regata do s. paio; 2014)