os moliceiros têm vela (11) – tenho de ganhar o meu


a luta é dura para alguns

a luta é dura para alguns

não digo nada
não faço nada

vou lá de quatro
em quatro anos

a vida custa
custa muito a vida

tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu

de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas

tenho de ganhar o meu

que isto não é para todos

que isto não é para todos

( regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (10) – de mim


o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

Que importa perder a vida

em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”

antónio aleixo

(murtosa; cais do bico; 2012)

(murtosa; cais do bico; 2012)

há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu

venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se

serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser

até lá serei sempre eu

os moliceiros têm vela (9)


em bando na regata da ria de 2013

em bando na regata da ria de 2013

murtosa, novo logo do município: o tempo de pensar

primeiro momento, pensemos em termos gerais sobre o regime em que vivemos, a democracia.

em democracia, através do voto, escolhe-se quem governa, mas quem governa, não escolhe sem se manter alheio aos governados, tenham ou não votado nele. governar, hoje, é tornar-se transparente nas decisões e cumprir a lei – dar o exemplo. é impensável, nos dias de hoje, uma gestão da coisa pública longe dos olhares dos cidadãos – dos jornais, à net, ninguém escapa, muito menos os que mais visibilidade social têm.

não há, por isso mesmo, após o acto eleitoral, uma maioria silenciosa, porque ganhou, e uma minoria calada, porque perdeu. é isto a democracia. as manifestações públicas de apoio e/ou de crítica são a demonstração da vitalidade de uma sociedade democrática, os que pensam que não é assim, vão outros caminhos.

carrinha logo cmm

segundo momento, o como da tomada de decisão. observadas que sejam as disposições legais que balizam o acto em causa, haverá que ter em conta, aquilo. a que se chamam “as boas práticas”. ser legal não basta, convém que seja o melhor – para isso foram eleitos: para fazer o melhor dentro da legalidade.

um exemplo, muito simples, e que é aplicado nos concursos de painéis de moliceiros. com que critérios é formado o júri? quem são os seus membros?  um júri que tenha na sua constituição pessoas com conhecimentos adequados a uma análise estética, por exemplo

terceiro momento, o caso concreto do novo logo do município da murtosa. volto a perguntar: todo o procedimento foi regular? houve a preocupação, tratando-se da imagem do município, de constituir um júri com competências consideradas necessárias para a sua aprovação? já foi aprovado?

quarto momento, do virtual ao real. tinha dito que já não me pronunciaria mais sobre ao assunto, mas entretanto, como não vivo na murtosa, fizeram-me chegar a foto, que anexo, da exibição do logo numa carrinha da câmara municipal. interessante seria saber desde quando? volto à acta de 20 novembro.

onde tudo se sabe, nada se pode esconder.

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(ria de aveiro; regata da ria)

os moliceiros têm vela (8)


a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

pior que não se lembrar do passado

é não ter passado para lembrar

não matem os moliceiros

o  moliceiro "dos netos", do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

o moliceiro “dos netos”, do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

(ria de aveiro; regata 2013)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

ahcravo_DSC_1041_ zé rebeço+vela
(torreira; regata da ria, junho, 2014)

os moliceiros têm vela (7) – mudam-se os tempos ……


moliceiros no s. paio, anos 90

moliceiros no s. paio, anos 90

farão para aí uns dois anos, pelo verão, fazia eu o meu passeio pela beira ria quando, no areal em frente ao estaleiro do mestre zé rito, dou pelo domingos da grila a fazer uma caldeirada de enguias.

ele e um grupo de amigos tinham ido fazer uns lanços de chincha, para fazer uma caldeirada que, agora ao lume, perfumava aquele pedaço de praia remoçada.

de repente vieram-me à memória os tempos em que ia com a família, para a ilha do amoroso, fazíamos uns lanços de chincha e havia sempre enguias para saborear numa caldeirada à maneira.

levávamos as batatas, os temperos, talheres, toalhas, bebidas e pão. as enguias eram apanhadas na hora, lavadas e amanhadas à beira ria. havia areia na ilha e era com ela que se agarravam as enguias para serem amanhadas.

um brasido, uma panela, os saberes culinários dos meus tios césar e arcênsio, e a caldeirada era saboreada por uma família que a ria juntava.

foi essa memória que o domingos reavivou com a sua caldeirada. perguntou-me se queria almoçar com eles, mas eu já tinha almoçado, não recusei foi a prova do molho: estava boa. claro que a receita do domingos, era a receita do domingos, tinha-lhe até permitido ganhar um primeiro prémio num concurso de caldeiradas de enguias – palavras dele.

ora bem, eu tinha na minha posse a receita da caldeirada de enguias à murtoseira, deixada pelos meus tios avós e que o meu pai passou a escrito e eu guardei. para a publicar faltava-me apenas uma foto para a ilustrar. claro que aproveitei.

único problema, a receita do domingos leva pimentos e a tradicional, que eu transcrevi, não, mas a ideia estava lá. além disso os pimentos passavam meio desapercebidos na imagem.

no dia 25 de fevereiro, de 2013 publiquei no meu blog ahcravo.com um artigo intitulado “caldeirada de enguias à murtoseira”, ilustrado com a foto da caldeirada do domingos.

houve então quem pegasse no facto de a foto ter os pimentos para se indignar, porque a receita tradicional não os tinha.

interessante que os puristas, que então reclamaram pelo facto de verem, lá perdidos, uns pedaços de pimento, gostem agora da nova imagem de marca do município, tão fiel que é à traça de um moliceiro.

mudam-se os tempos …… ou será que mudou mais alguma coisa

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(torreira, s.paio)

o novo logotipo do município da murtosa: um segundo tempo


na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

para deixar descansar os designers da murtosa, que ao longo destes dias tenho vindo a conhecer – e são muitos, e respeitam-se mutuamente, o que é bonito -, iria agora analisar o procedimento administrativo e não só, que, tudo indica, conduziu à “Criação da Marca Institucional do Concelho da Murtosa”.

1 – dia 6 de novembro, de 2014 na página do facebook da empresa Artifex:

pub artifex

2 – dias depois reparei que a página do município da murtosa no facebook já apresentava a “ nova marca”, aliás a primeira publicação, na cronologia, com essa identificação era de dia 5 de novembro, data portanto anterior à da divulgação da Artifex, o que só abonava em favor da empresa.

3 – não haverá 2 dias e a publicação (um cartaz) ainda estava na cronologia, mas dia 11 já lá não estava. acontece, as redes sociais têm falhas que não são da culpa dos utilizadores, há publicações que inexplicavelmente desaparecem. pesquisando, no entanto, no álbum de fotos verifiquei que não estava de todo errado, quando encontrei, entre outras, a seguinte publicação de dia 5 de novembro:

pub logo cmm

ou seja, efectivamente no dia 5 de novembro, a “nova marca” já era divulgada na página do município.

4) 20 de novembro – reunião do executivo em que é apresentada uma informação do “Sr. Presidente da Câmara, datada de 17 de novembro de 2014, através da qual propõe que, no cumprimento do preceituado na Lei do Orçamento de Estado para 2014 (Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro), a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”, que é aprovada com um único voto contra: o do vereador da oposição, Jorge Bacelar.

(a declaração de voto está anexa à acta nº23/2014, e é uma declaração amiga do executivo: alerta-o para uma situação de eventual “irregularidade”)

face ao exposto, ficam-me algumas dúvidas:

é impressão minha ou, legalmente, só depois de o executivo camarário ter aprovado, em 20 de novembro o parecer prévio favorável ao procedimento, é que o mesmo se podia ter iniciado?

será que não tem de haver uma aprovação da marca por parte do executivo? é que ainda não há nenhuma acta que o expresse

não será de questionar a regularidade de todo o procedimento que levou à concepção e utilização da “nova marca”?

aos atentos juristas e dirigentes políticos da terra fica a questão.

as aparências iludem

as aparências iludem

os moliceiros têm vela (6)


isto é um moliceiro a todo o vapor

isto é um moliceiro a todo o vapor

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (conclusão)

………..

A nosso pedido, os frisos marítimos e florais são dos mais singelos e tradicionais, o espaço cénico é completamente preenchido e pormenorizado, mantendo-se à proa, a BB, uma legenda identificativa do construtor, bem como a localidade, com o mestre a cavalo, lembrando a figura equestre de antanho.

«MESTRE ANTÓNIO ESTEVES – PARDILHÓ – »

Na proa de estibordo, uma legenda tipo apelativo, em que o  narrador presente exprime o desejo de que Deus ampare os nossos pescadores que saem para a pesca do bacalhau, coaduna-se com o desenho brochado.

«DEUS VOS GUIE PESCADORES»

Na ré, a BB, uma cena campestre, vulgar e antiga, serve de suporte à frase interrogativa, maliciosa e brejeira, que joga com um duplo sentido, no discurso do interlocutor masculino.

«ONDE QUERES QUE TE CARREGUE?»

Na ré, a EB, como era hábito, mais uma garotice, em que o narrador não participante joga com o duplo sentido da palavra «passarinha», numa frase exclamativa. Uma bela e rechonchuda moçoila, de mini-saia, apanha um passarinho, lá no alto de uma árvore, encarrapitada num escadote.

«QUE RICA PASSARINHA!»

As outras zonas decoradas desta embarcação enaltecem o conjunto: o barrote do castelo da proa, a antepara da proa, os dois golfiões, a base da bica, a parte fontal da tampa móvel da entremesa, as extremidades dos forcados biqueiros e a divisa do construtor que o pujante leme negro ostenta.

O pintor revela um cuidado especial com o grafismo do registo-A – 1937 – M, em que o número escolhido pelos órgãos directivos do museu pretende lembrar o ano da sua fundação oficial – 8 de Agosto de 1937.

Ana Maria Lopes
Vice-presidente da Direcção dos Amigos do Museu de Ílhavo

ao vivo e a cores

ao vivo e a cores

(muito obrigado dra ana maria, pela cedência do texto para pulicação)

os moliceiros têm vela (5)


em 2007 era assim, no bico

em 2007 era assim, no bico

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes
A galeria de tipos é quase infinita.

O rapaz e a rapariga em situação de trabalho e/ ou em relação amorosa plena de malícia contrastam com o galã e vampe enamorados.
Com maior ou menor grau de flexibilidade, mais ou menos de acordo com «a escola» do pintor e o seu grau de sensibilidade, todos os painéis sobrantes estão dentro dos cânones da pintura de moliceiros: motivo central, sublinhado por uma legenda e emoldurado por frisos geometrizados.

Na retina, ficam as cores puras e luminosas: o amarelo, o verde, o azul, o vermelho, o branco e o preto; as gamas intermédias aparecem só num ou noutro pormenor. Tem-se evoluído muito, neste aspecto, como já referimos.

Este conjunto de cores é igualmente usado noutros artefactos locais – as cangas vareiras.

Foi a decoração do moliceiro que influenciou a da canga? Ou, pelo contrário, a da canga que influenciou o moliceiro?

Segundo nosso entender e o de outros – 6 – estudiosos, ambos reflectem a opulência económica da classe dos lavradores muito ligada ao poder político local, nos séculos XVIII e XIX.

Pela vibração cromática, pelos contornos bem marcados, por um figurativismo de planos frontais, pela ingenuidade, pela adaptação do desenho à superfície, pelo recurso a temas do quotidiano, os painéis dos moliceiros constituem exemplos belíssimos de pintura «naïf» concordantes com as quatro legendas sistemáticas plenas de graça -7-.

Normalmente, estas são
inscritas numa estreita faixa branca ou rósea, situada na parte inferior do painel entre o friso e o motivo principal.

Os grafismos usados foram mudando desde a letra minúscula à maiúscula, alternando-a ou misturando-a, manuscrita ou tipográfica.

Tendo acompanhado a construção desta embarcação junto do Mestre Esteves, no seu estaleiro, sempre tivemos a preocupação de que os métodos construtivos e os materiais utilizados fossem o mais tradicionais possível. E com a decoração, aconteceu o mesmo junto do pintor, o José Manuel Oliveira, respeitando o seu estilo. Defende e pratica a mesma linha pictórica com que debutou desde o final dos anos 80, vai acompanhando nos seus painéis os eventos que se vão sucedendo, usando igualmente a diversidade de temas a que estávamos habituados. Não põe completamente de lado o tradicionalismo do painel da proa a BB, reinventando-o. O Zé Manel impôs-se como o mais famoso, produtivo e inovador pintor de painéis de moliceiro.

(a continuar)

-6- Senos da Fonseca, obra já citada, p. 164, Porto, 2011.

-7- Ana Maria Lopes, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição. Âncora Editora, Lisboa, 2012.

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(murtosa; bico; regata moliceiros; 2007)

a murtosa não é a pátria do moliceiro?


o "António Garete" a navegar, na regata do bico de 2007

o “António Garete” a navegar, na regata do bico de 2007

– a propósito de uma publicação do rui cruz, na sua página do facebook – 

(Kiss – keep it simple stupid ou kill it simply stupid

tradução: faz simples estúpido, ou, mata-o simplesmente estúpido)

as siglas dão para muita coisa, haja imaginação e, sem ela, não há técnica, nem design, que resista.

vem isto a propósito de uma a análise técnica de “design” de rui cruz sobre o “novo” logotipo do Município da Murtosa. há argumentos técnicos para tudo, mas os melhores são os que são tão técnicos, tão técnicos, que parecem só isso. ora a técnica não é algo de intocável, está na moda recorrer a “independentes” na política e à “técnica”, para que tudo pareça limpo de influências de quem manda, melhor ou pior.

mas será só a técnica de design que justifica o logotipo? em termos de design seguiu as regras, logo está bem. é um raciocínio simples e redutor, um raciocínio kiss. mas, digo eu, no caso da marca/logotipo de um município, ser só um designer a decidir é muito pouco ou quase nada, dada a importância que a imagem carrega em si mesma. será que não deveriam ser ouvidos pareceres de outras áreas? se a murtosa á pátria do moliceiro o logotipo pode ser um barco qualquer? veja-se o logotipo do município de aveiro, simples, sim, mas vê-se que é um moliceiro.

LogoAveiro

um argumento técnico, de um técnico da área em causa, e …. lá se vão os argumentos dos não especializados. quantos crimes se cometem em nome da técnica? a começar no ambiente por exemplo, sempre muito sustentados por argumentos técnicos. não é verdade rui cruz?

mas, continuemos, para ilustrar a sua teoria, o rui cruz diz que há barcos moliceiros a navegar sem vela e mostra o moliceiro “António Garete”, varado num ancoradouro. bom, se isto é navegar…. entendo. navega, sim, como na foto, que aqui insiro, na regata do bico em 2007. infelizmente o “António Garete”, se ainda não foi destruído, navegará agora, provavelmente, no canal de aveiro, com outros amputados, sem mastro nem vela.

em resumo, e sem abordar ainda as questões metodológicas e legais subjacentes a todo o procedimento, queria deixar aqui uma palavras de um designer da murtosa :

“ ….talvez fosse de interesse da comunidade marinhoa, a edilidade lançar um repto a todos aqueles que ligados ou não ao design cá na nossa Santa Terrinha pudessem colaborar, apresentando um esboço do que poderia vir a ser a nova “marca” do município da Murtosa. Após selecção e escolha do melhor trabalho, feita pela assembleia municipal, o departamento competente na câmara deveria abrir concurso para as empresas de design interessadas desenvolverem o trabalho pretendido baseadas no referido esboço. Essa nova “marca” teria certamente um cunho mais comunitário, mais democrático, “mais nosso”.Para terminar seria injusto não referir que a empresa referida como estando a trabalhar no projecto, é competente e tem capacidade para desenvolver um trabalho criterioso. “

é um parecer técnico, e não só, de um designer. talvez assim seja mais fácil de entender que a técnica só por si não justifica tudo.

lutar hoje contra a extinção dos moliceiros, é de facto o mais importante, temos visto o que as autoridades locais e regionais têm feito, e o que têm feito os que isto afirmam. este é também um tipo de argumento muito utilizado para desviar as atenções da discussão de um caso particular: falar no geral. parece que estamos a perder tempo nestas discussões de pormenor, que não o são, enquanto deixamos passar o fundamental. é assim que nada se faz, dizendo que há coisas mais importantes a fazer.

não há polémicas em vão, há é silêncios convenientes.

navegar é preciso

navegar é preciso

(murtosa; regata do bico; 2007)