postais da ria (42) – moliceiros, uma memória condenada?


como é enorme o pequeno moliceiro do ti virgílio!

como é enorme o pequeno moliceiro do ti virgílio!

ao contrário dos rios
correr para a nascente
procurar na rocha
os cristais de água

recusar a ilusão
desconstruir a máscara
por mais bela

escutar o silêncio
por demais repetido
onde se acolhe a voz da razão

não ser teu o tempo
onde a tua voz
será o melhor tempo

vê bem quando olhas
diz o que pensas
calar é

há quem sorria só hoje

isto são moliceiros

isto são moliceiros

(regata de moliceiros, s. paio, torreira, setembro, 2014)

postais da ria (37) – os moliceiros sempre


junho vai longe e os donos dos barcos ainda não receberam os prémios ..... não os matam, mas sufocam-nos

junho vai longe e os donos dos barcos ainda não receberam os prémios ….. não os matam, mas sufocam-nos

será sempre verão
quando maduras as palavras
te falarem de mim

voarei ainda nos braços líquidos
que por entre terra e mar
caminhos meus

dizer de mim o ter sido é
falar de gentes e costumes passados
é dizer-te as raízes de ti

roma não paga a traidores
como queres que eu?

(assinado: moliceiro)

foram os donos dos moliceiros que pagaram o tempo de antena. " ... cantando e rindo/levados, levados sim"

foram os donos dos moliceiros que pagaram os tempos de antena. ” … cantando e rindo/levados, levados sim”

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

do meu amigo Manuel Antão, membro da equipa que ganhou a regata da ria 2014, em 29 de junho, aqui fica um desabafo

” VAMOS nós navegando nas águas calmas da RIA mas por vezes onde essa calma nos traz agonia não é berço nem quadra antes fosse é só para dizer que esta mesmo regata AVEIRO WEEKEND JUNHO 28 / 2014 .TANTA propaganda na RTP canal 1 de televisão no programa do nosso AMIGO FERNANDO MENDES no preço certo aproximadamente uma hora onde falou na RIA DE AVEIRO DOS MOLICEIROS DO HOTEL MOLICEIRO ELE PRÓPRIO ANDAR NOS MOLICEIROS NOS OVOS MOLES DE AVEIRO E QUE AVEIRO ERA A VENEZA DE PORTUGAL enfim uma boa em tudo para a CIDADE DE AVEIRO E TURISMO DE PORTUGAL o pior é que isto foi como já disse em JUNHO e o resto que é o tal DINHEIRO ainda não veio alguns em pintar os barcos gastaram 600 euros ou mais outros partiram o mastro e esta gente que organizou ainda nem uma só palavra nos deram SERÁ QUE ELES JÁ PAGARAM AO NOSSO AMIGO FERNANDO MENDES POR ENGANO ?..”

postais da ria (35) – carta aos patrões da pátria


postais da ria (35)

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

“A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! (José de Almada Negreiros) “

pergunto-vos onde estou
e sei que sabeis que não sabeis
ou se o sabeis não o lamentais

não sei sequer se ainda sou
porque se o for já nada é como vedes
neste fragmento de tempo parado
diante dos olhos de quem para mim
ao ver-me se lembra de o ter sido

se em vida me não destes a mão
ao menos agora quando as forças me faltam
deixai que me recordem como fui

não há muito tempo um cartaz pedia
“não matem os moliceiros”
hoje agora aqui
apenas vos pedimos
“não matem a nossa memória”

(assinado: um moliceiro)

como eu era belo há tão pouco tempo

como eu era belo há tão pouco tempo

(murtosa; bico; 2009)

uma imagem tem sempre, pelo menos, uma mensagem


(trabalho da Artifex Design)

(trabalho da Artifex Design)

 

quem não conhece o moliceiro – o barco – é com esta imagem que fica a identificá-lo. uma bela imagem, bem concebida, com cores vivas, apelativa.

mas ….

e o mas é que me perturba e poderá perturbar alguns: o moliceiro é um barco com vela. faz-se excepção aos “amputados” que estacionam no canal de aveiro e fazem “passeios” turísticos em pista fechada. não são só moliceiros, são mercantéis (saleiros, em aveiro) e barcos que misturam tudo e nada são.

se a “pátria do Moliceiro” assume este símbolo como imagem de marca, é o assumir de que o futuro do moliceiro é deixar de o ser. que nome dar a uma pátria que “mutila” o filho e ainda por cima o exibe mutilado?

não penso que a empresa autora da nova imagem do município tenha qualquer intenção de transmitir a mensagem da morte dos moliceiros. mas quem a avaliza e aprova deve ter consciência do que está a aprovar e a fazer.

se já é difícil manter viva a tradição com os parcos apoios das entidades responsáveis, aos donos dos moliceiros que ainda concorrem nas regatas à vela, o que dirão quando virem este símbolo?

assim vamos por cá

postais da ria (33)


o fim está tão próximo quanto a vitória

o fim está tão próximo quanto a vitória

nada dizer

nem todos os dias são
muitos haverá em que
tu sabes
não pode ser
sempre nem nunca

sê no dia em que não
o mesmo que noutro dia qualquer
a razão encontra-la-ás se
razão houver mas
não será por isso

pelo que és
pelo que sonhas
pelo que queres que seja
vai

porque nada é o que

a vitória está tão próxima como o fim

a vitória está tão próxima como o fim

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (30) – um dia falarei das pedras


ainda os cisnes voam

ainda os cisnes voam

faço-me no caminho
que faço
cúmplices efémeros
neste fazer-mo-nos

escuto o vento por
vício
abro-lhe os braços
o corpo
vou por onde

em tudo somos
o início
a recusa de ficar
ser lago

somos os dias
e os dias são imensos
porque nós neles
desencaminha-mo-los

um dia falarei das pedras

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(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (28)


necas lameirão e a pintura de um moliceiro

necas lameirão e a pintura de um moliceiro

(a propósito de “galveias”, o último do josé luis peixoto)

apetece-me não dizer nada
não juntar palavras
na tentativa de ao fazê-lo
dar algum sentido
a coisa nenhuma

não escrevo para
escrevo porque

estendo os braços sobre o tempo
abraço um nome
tantos nomes
um corpo
tantos corpos
a memória dos outros inscrita em mim

apetece-me não dizer nada
a leitura das grandes obras
deixa-me sempre um vazio
uma noção da pouca valia do que
por aqui vou deixando
sem pretensões
mas vou deixando

vou deixando

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(torreira, 2014)

postais da ria (26)


ria de aveiro; regata da ria, 2014

ria de aveiro; regata da ria, 2014

a propósito o moliço

chamam-se moliceiros
porque à apanha de moliço
homens e barcos corriam a ria
que as terras férteis consumiam

colhiam-no do fundo
e era mais caro na venda
se à superfície dele se dizia
arrolado
misturado com lodo secava
nos cais
e era vendido a preço mais baixo

no mesmo catálogo
digo hoje dos amigos
dos do fundo
dos que ainda do fundo
me fertilizo e ganho os dias

aos arrolados
estou velho demais
para com eles
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o princípio da incerteza


por momentos os cisnes de novo

por momentos os cisnes de novo

éramos jovens e voávamos
pelos dias
sem sobressaltos de amanhã
éramos um bando
voávamos assim

que ontem dentro do hoje?

o voo é agora incerto
as asas foram perdendo penas
a pena que eu tenho
de não as ter
é saber que as tivemos

rasamos os dias
sem saber onde e quando
poisaremos

o agridoce dos dias

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2014)