crónicas da xávega (84)


nunca

o peso do saco

o peso do saco

duas faces têm os dias

nunca saberás o peso
do fardo de ser
até te pesar nos ombros
o amargor das palavras
onde amor devia

duas faces têm os dias

verga-se não o corpo
mas o que dentro dele
mais frágil e sensível
é no mar que afogas
a raiva de seres assim

dares a outra face
nunca

pesado fardo, duro caminho

pesado fardo, duro caminho

(torreira; companha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (133)


recuso este futuro

o "cristina e sara", do ti virgílio, espera pela maré para chegar ao cais. 

o “cristina e sara”, do ti virgílio, espera pela maré para chegar ao cais. 

não digo nada
nem bem nada mal
mostro o que vejo

digam-me que não devia
que não é este o postal

não digo nada
nem bem nem mal
mostro o que vejo

tem a força de ser real

lê tu o que eu vi
o que sentes?

eu vejo o futuro
que recuso aceitar

não comento o estado dos portos de abrigo da murtosa, nem os milhões ali gastos com fundos comunitários e nossos. mostro o que vejo

não comento o estado dos portos de abrigo da murtosa, nem os milhões ali gastos com fundos comunitários e nossos. mostro o que vejo

(murtosa; cais do bico; 2 de agosto de 2015)

crónicas da xávega (81)


se te apanho

a condução da manga

a condução da manga

deixaste os portugueses atrás
na fuga precipitada para o abismo
empurrado por uma europa
a que só resta um eu no centro
solidário consigo mesmo

deixaste os portugueses atrás
destruíste lares laços afectos
semeaste desespero fome abandonos
encheste os bolsos de alguns
fazendo deles o país não o povo

não me digas que depois de tantos
atrás deixares esquecidos que foram
menos no esbulhar dos haveres parcos
depois de tanto teres feito para tão poucos
a troco de trinta dinheiros embolsados
vigarices muitas falta de princípios basta

não me digas
portugal à frente
que à frente irás tu
tenha o povo memória
saibam as gentes o que querem

portugal à frente
e eu atrás de ti

se te apanho

a mão fechada sobre

a mão fechada sobre

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (131)


a de alfinete

o cambar ou a roda dos moliceiros

o cambar ou a roda dos moliceiros

hoje quero dizer-te
um segredo

não existo

poucos o sabem
mas eu não existo

sou uma assombração
no dizer dos antigos

vim para incomodar
não para existir

por isso o meu nome
começa por a
como alfinete

vê lá não te piques

quem sabe, domingo dia 2 de agosto, vamos ver outra roda assim?

quem sabe, domingo dia 2 de agosto, vamos ver outra roda assim?

(murtosa; regata do bico: 2007)

os moliceiros têm vela (130)


o mais é vento

o

o “marco silva” a terminar a regata em primeiro lugar

“há 45 anos que não fazia um barco”

(mestre firmino tavares)

ao fazer-se o barco
refez-se o homem

construiu-se um tempo outro
de outros saberes e fazeres
cresceu nos olhos uma luz diversa
o brilho adormecido há 45 anos
vi neles barcos serem de novo filhos
paridos com o amor e a arte de mãos hábeis

fazem-se os homens como os caminhos

o barco navega agora
pulsam dentro dele dois corações
oiço-os bater sempre que a vela se enfuna

a ria sorri um sorriso largo de espuma
e eu fico na margem a reaprender o sonho

o mais é vento que passa

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

(ria de aveiro; regata da ria; 2015)

NOTA: na galeria municipal, na torreira, está patente, até dia 2 de agosto, a exposição “a ria no coração”, patrocinada pela câmara municipal da murtosa, e que documenta fotograficamente a construção do moliceiro “marco silva”. as fotografias são da autoria de abel cunha, antónio lousada e rui cruz.