crónicas da xávega (94)


fico com os barcos

como se ave fora e voasse

como se ave fora e voasse

quando a faca corta a água
o sangue é incolor
como se o mar chorasse

despeço-me de ti
porque já não és
e eu que fui contigo
sou agora outro

fico com os barcos
reaprendo a navegar

navegar é preciso....

navegar é preciso….

(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)

postais da ria (97)


o lixo debaixo do tapete

não é fácil trabalhar aqui

não é fácil trabalhar aqui

lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade

procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más

esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto

dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam

reparte-a

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

(torreira; cais do guedes; verão, 2015)

crónicas da xávega (92)


o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

ficar destes dias a memória
onde rostos gestos sentires
os nomes os amigos
o ter sido aqui tanto

difuso o nevoeiro
começa a cobrir tudo
em breve quase nada
restará

o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (96)


palavras assassinas

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

pacientes as mãos sempre elas
limpam das redes os caranguejos
ferem-se esmagam quebram
preparam sábias nova pescaria

assassinas as palavras
entraram pelas malhas dos dias
depositadas por mãos alheias
saberes de vícios urbanos
habilidosos hábitos aprendidos

confundiste-as com
as malhas dos teus dias
como pescarás agora?

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

(torreira; varadouro do estaleiro do zé rito; 2015)

“sou tudo o que aqui encontras”, notícias do lançamento


todos têm um nome, um rosto, um abraço. são amigos

todos têm um nome, um rosto, um abraço, chamam-se: amigos

o monte branco caffé estava cheio de amigos vindos de lisboa, de coimbra, do porto, de aveiro, da terra. amigos que do virtual entraram porta adentro do real e amigos são de facto. amigos de muitos anos e de muito sentir. estiveram ali os que puderam, os que quiseram e os que não podendo fizeram sentir que estavam.

foi uma noite cheia, que abriu com uma apresentação feita pelo meu amigo diamantino matos, que relembrou tempos idos da juventude comum na torreira e na murtosa, interligou, como só ele sabe, as palavras e as imagens do livro,  com todas as formas de expressão artística que tão bem conhece e domina. obrigado diamantino

obrigado a todos, que foram muitos, não só porque encheram a sala, mas porque me encheram a mim, e eu não sei de sala maior que aquela onde amigos como vocês chegam para partilhar comigo o prazer da leitura e da fotografia, de estarmos vivos juntos.

obrigado ao monte branco caffé, por tudo, por tudo.

abraço-vos a todos e somos muitos

(torreira; no dia a seguir)

a primeira edição está quase esgotada. foi uma aposta ganha.

os moliceiros têm vela (140)


felicidades

tempos felizes

tempos felizes

não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou

tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido

há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois

é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias

felicidades

a beleza é a ternura dos dias

a beleza é a ternura dos dias

(torreira; regata do s. paio; 2012)