o peso do mar
pesadas cordas estas carregadas de mar
(torreira; companha do marco; 2013) liliana rodrigues
palavras de mim
não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza
não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda
o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar
vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?
(torreira; regata do s. paio; 2012)
conheço alguns
são os da janela que dizem
talvez
analisam criticam meditam
propõem
procuro-lhes os feitos
encontro sem demora logo
os por fazer habituais
estão sempre prontos para
desde que
por isso na janela cotovelos
vejo-os
habitam as mansardas das
casas grandes
ou rés-do-chão dos senhores
das terras
têm do mundo uma visão
superior
mas é para cima que olham
se chamados
quais gatos têm vidas sete
prontas as usar
(murtosa; regata do bico; 2009)
floriram cravos nas pontas
das espingardas
eram vermelhos como o sangue
que não correu
em abril a 25 no ano de 74
de paz se queriam os dias a vir
livres e solares
escritos com a mesma letra
d de dar
saltaram cravos para as lapelas
nos dias de festa e foram muitos
disfarce também para filhos da mãe
os mesmos que sem eles agora
hoje só com a bandeira na bando do casaco
libertos de disfarce incómodo na festa
foram donos e senhores efémeros
estariam ali fosse ela nacional ou
da república em democracia eleita
guardadas estavam as cadeiras
o tempo era a única oposição conhecida
em verdade te digo que mentem
(coimbra; 25 de abril; 2015)