postais da ria (81)


nasci para viver

ahcravo_DSC_0666 bw

seguir caminhos feitos
só porque é duro fazê-los
é coisa para sapatos
gastos antes de estrear

eu
vou descalço rasgo os pés
abro os meus caminhos
rasgo leitos sou rio revolto
com ânsia de mar fome de marés

sou o que nasceu para estar vivo

ahcravo_DSC_0666

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (100)


sou hoje

SONY DSC

fecho os olhos e sinto tudo
como se visse
estou vivo para viver hoje

não para me arrepender
amanhã de não ter feito

levo a carta ao seu destino
nada mais que correio
que não perde a mensagem
leiam-na ou não é sua

chove e é este o tempo

SONY DSC

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (99)


palavras de mim

ahcravo_DSC_4223 bw

não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza

não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda

o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar

vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?

ahcravo_DSC_4223

(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (98)


conheço alguns

ahcravo_DSC_6813 regata moliceiros bico bw

são os da janela que dizem
talvez
analisam criticam meditam
propõem

procuro-lhes os feitos
encontro sem demora logo
os por fazer habituais

estão sempre prontos para
desde que
por isso na janela cotovelos
vejo-os

habitam as mansardas das
casas grandes
ou rés-do-chão dos senhores
das terras

têm do mundo uma visão
superior
mas  é para cima que olham
se chamados

quais gatos têm vidas sete
prontas as usar

ahcravo_DSC_6813 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

abril 41 anos depois


DSC_7754

floriram cravos nas pontas
das espingardas
eram vermelhos como o sangue
que não correu
em abril a 25 no ano de 74

de paz se queriam os dias a vir
livres e solares
escritos com a mesma letra
d de dar

saltaram cravos para as lapelas
nos dias de festa e foram muitos
disfarce também para filhos da mãe
os mesmos que sem eles agora

hoje só com a bandeira na bando do casaco
libertos de disfarce incómodo na festa
foram donos e senhores efémeros

estariam ali fosse ela nacional ou
da república em democracia eleita
guardadas estavam as cadeiras
o tempo era a única oposição conhecida

em verdade te digo que mentem

o cravo é vermelho

o cravo é vermelho

(coimbra; 25 de abril; 2015)