os moliceiros têm vela (56)


para o arrais marco

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

como as árvores
os amigos

como os diamantes
raros são

um barco voga lento
um amigo dentro

quando o homem é barco só lhe resta navegar

quando o homem é barco só lhe resta navegar

(torreira; regata do s.paio; 2010)

os moliceiros têm vela (55)


das palavras

uma imagem centenas de vezes repetida, mas que nunca cansa

uma imagem centenas de vezes repetida, mas que nunca cansa

gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto

gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para

ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito

ponto final parágrafo

um moliceiro que se preza é assim

um moliceiro que se preza é assim

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (54)


o fio do tempo

enrolada a vela no mastro, o zé rito espera

enrolada a vela no mastro, o zé rito espera

fazer do hoje
um ontem
de que o amanhã
se orgulhe

pesado fardo este
de tão fino fio
ser tecido o pano
que o corpo cobre

de frio tremerá
quem mal o tecer

o bonito vende bem,  a  beleza não tem preço

o bonito vende bem, a beleza não tem preço

(torreira; regata da ria; 2011)

os moliceiros têm vela (53)


do silêncio

"NÃO MATEM OS MOLICEIROS", no moliceiro "dos netos", do ti abílio, usada no protesto contra o cancelamento da regata da ria, no mês de julho

“NÃO MATEM OS MOLICEIROS”, no moliceiro “dos netos”, do ti abílio, usada no protesto contra o cancelamento da regata da ria, no mês de julho

escrevo silêncio
para que não o seja
mesmo que não ouças
não as leias
as palavras ouvem-se

há nãos a mais
nestas linhas poucas
onde nada
absolutamente nada
acontece para além

de silêncio escrito
não o sentes?

em 2012 o grito era este. continuam a deixá-los morrer

em 2012 o grito era este. continuam a deixá-los morrer

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (51)


do ouvir

como se planassem

é esta a luz, é este o cantar

uma voz antiga
debruçada na janela
dos meus olhos
canta

canta como se
ouvisse outras vozes
mais antigas
cantar

cantar palavras de luz
é destino
de quem nasceu para
ouvir

ouve-as comigo

foi para ti que cantei esta canção

foi para ti que cantei esta canção

(torreira; regata do s.paio; 2010)

vivelinda bastos


a ria não dá para camaradas

a encomenda

a encomenda

um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha

a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores

mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca

a ria não dá para camaradas

e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas

o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor

são as  mulheres da ria

o esgar do esforço

o esgar do esforço

(torreira; marina dos pescadores)