das palavras
gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto
gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para
ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito
ponto final parágrafo
(murtosa; regata do bico; 2007)
das palavras
gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto
gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para
ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito
ponto final parágrafo
(murtosa; regata do bico; 2007)
do silêncio

“NÃO MATEM OS MOLICEIROS”, no moliceiro “dos netos”, do ti abílio, usada no protesto contra o cancelamento da regata da ria, no mês de julho
escrevo silêncio
para que não o seja
mesmo que não ouças
não as leias
as palavras ouvem-se
há nãos a mais
nestas linhas poucas
onde nada
absolutamente nada
acontece para além
de silêncio escrito
não o sentes?
(murtosa; regata do bico; 2012)
a ria não dá para camaradas
um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha
a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores
mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca
a ria não dá para camaradas
e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas
o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor
são as mulheres da ria
(torreira; marina dos pescadores)
da praça
no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra
do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem
ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis
defuntos
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)