entre dois lanços
haver homens
uma bucha
um copo de sumo
um iogurte fruta
o fim de um mito
o mar em frente
o tempo incerto
a espera
não desespera
é
(torreira; companha do marco; 2014)
são tantos
vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram
vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram
lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia
são os rios desta terra
(torreira; regata do s. paio; 2014)
para o antónio gama
hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto
continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver
ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu
à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu
os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda
abraço antónio
(murtosa; cais do bico)
és tu
(a muitos amigos)
escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como
erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras
erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”
escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais
és tu
a (minha) matemática do tempo
somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem
quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei
um ano mais
um ano menos
um ano apenas
(murtosa; regata do bico; 2012)