na crista da onda
outro galo canta
é barco homem
madeira carne osso
é gente de mar
(torreira; companha do marco; 2014)
a ria não dá para camaradas
um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha
a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores
mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca
a ria não dá para camaradas
e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas
o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor
são as mulheres da ria
(torreira; marina dos pescadores)
da praça
no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra
do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem
ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis
defuntos
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
meditação com a ria em fundo
tenho o tempo
que o tempo me der
sou o meu tempo
com todo o tempo
que lá couber
não mato tempo
nem o de antes
nem o que depois
não roubo tempo
ao tempo
que perder tempo é
ao tempo dou
tudo o que tenho
e ele quiser
um pouco de mim
num tempo qualquer
(ria de aveiro; torreira; mariscar)
homem de mar
de poucas falas e muito saber
não lhe sei a idade
conheci-o no mar
na faina das companhas
anda agora apoiado
num cajado improvisado
em passeios curtos
com os olhos presos nas ondas
perdidos de já não
paramos conversamos
dizemos palavras poucas
silêncios que se dizem
nos olhos
família antiga na torreira
gerações muitas
com registo nas companhas
os acabou não acabam
diz
leio-lhes os nomes nos livros
em séculos que lá vão
o ti antónio caminha e parte
eu fico com a memória
e algo mais que aprendi
a vida não é mais que isto
ouvir e arrancar um sorriso
palavras mesmo se poucas
onde só a saudade
enche os olhos de sal
até já ti antónio
(torreira; 2013)
contigo quantos?
jamais negarei
o silêncio
as vozes por dentro
o clamor
não sei se algures
um homem poderá ainda
afastar as nuvens
num grito de sol ardente
as palavras que não digo
serão poucas
não procuro a perfeição
o meu tempo é hoje
o meu lugar aqui
sou mais um
mais um
um
contigo quantos?
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
ora batatas
cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada
falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal
servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos
ora batatas para tais palavras
(murtosa; regata do bico; 2010)