não perguntes nada
olha-me nos olhos
e lê-me
escuta o que não digo
sente-me
sou daqui há muito
(torreira, 2013)
agostinho trabalhito “canhoto”
de bico amarelo
belas palavras
finos discursos
atentos abraços
o silêncio
quando necessários
os braços
ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes
belas palavras
finos discursos
atentos abraços
de bico amarelo
na armadilha
os embaraços
pássaros muitos
(murtosa; regata do bico; 2010)
dos mandantes
terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes
são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão
são apenas
mandantes por mandato
mandatados
(ria de aveiro; regata da ria; 2013)
dos meus
algures terá havido um começo
um instante inicial em que
não sei como nem porquê
o primeiro arribou
terá encontrado meios de vida
pão para a fome e tecto ergueu
desconheço-lhe o nome
como quase todos os que
fundas raízes buscam
na vã procura do início
ser hoje aqui
é sempre ser o primeiro
ou não ser
mais do que a continuação
recuso ser mais um
mesmo se
podendo ser o último
coisas da terra
sou da terra
logo posso
(e não há regras
princípios termos)
sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido
(e não há regras
princípios termos)
vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu
estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo
por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra
por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto
fico como vou
(murtosa; regata do bico; 2012)