do olhar
vende bem o bonito
dizes
a beleza não se compra
digo-te
(ria de aveiro; torreira)
lembrando drummond
que coisa é o homem
carlos?
mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa
que coisa é o homem
carlos?
à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo
o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice
a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?
à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos
lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem
que coisa é o homem
carlos?
a força de querer ser
ou nada
(murtosa; regata do bico; 2010)
das palavras
gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto
gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para
ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito
ponto final parágrafo
(murtosa; regata do bico; 2007)
do silêncio

“NÃO MATEM OS MOLICEIROS”, no moliceiro “dos netos”, do ti abílio, usada no protesto contra o cancelamento da regata da ria, no mês de julho
escrevo silêncio
para que não o seja
mesmo que não ouças
não as leias
as palavras ouvem-se
há nãos a mais
nestas linhas poucas
onde nada
absolutamente nada
acontece para além
de silêncio escrito
não o sentes?
(murtosa; regata do bico; 2012)