os moliceiros têm vela (41)


fruto e semente

o tempo

o tempo

como tudo é frágil
e se quebra
por entre o fragor
dos dias

de água a memória
escorre
de pedra fora e não

dou-vos palavras
palavras palavras
e não digo nada
sinto tudo como se

somos
fruto e semente

toda a beleza é o instante em que

toda a beleza é o instante em que

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (40)


de bico amarelo

cá te espero

cá te espero

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

o silêncio
quando necessários
os braços

ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

de bico amarelo
na armadilha
os embaraços

pássaros muitos

que ria sem eles?

que ria sem eles?

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (39)


dos mandantes

do mesmo tamanho, só a distância ilude

do mesmo tamanho, só a distância ilude

terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes

são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão

são apenas
mandantes por mandato
mandatados

velas ao vento e todos pelo mesmo

velas ao vento e todos pelo mesmo

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

crónicas da xávega (42)


e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

dos meus

algures terá havido um começo
um instante inicial em que
não sei como nem porquê
o primeiro arribou

terá encontrado meios de vida
pão para a fome e tecto ergueu

desconheço-lhe o nome
como quase todos os que
fundas raízes buscam
na vã procura do início

ser hoje aqui
é sempre ser o primeiro
ou não ser
mais do que a continuação

recuso ser mais um
mesmo se
podendo ser o último

ahcravo_DSC_9393_mão de barca_marco 14
(torreira; companha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (37)


coisas da terra

há-de ser .... há-de ser

era bom que fosse …..  virá o vento e ….

sou da terra
logo posso

(e não há regras
princípios termos)

sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido

(e não há regras
princípios termos)

vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu

estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo

por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra

por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto

fico como vou

mesmo assim, sempre belo

mesmo assim, sempre belo

(murtosa; regata do bico; 2012)