postais da ria (35) – carta aos patrões da pátria


postais da ria (35)

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

“A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! (José de Almada Negreiros) “

pergunto-vos onde estou
e sei que sabeis que não sabeis
ou se o sabeis não o lamentais

não sei sequer se ainda sou
porque se o for já nada é como vedes
neste fragmento de tempo parado
diante dos olhos de quem para mim
ao ver-me se lembra de o ter sido

se em vida me não destes a mão
ao menos agora quando as forças me faltam
deixai que me recordem como fui

não há muito tempo um cartaz pedia
“não matem os moliceiros”
hoje agora aqui
apenas vos pedimos
“não matem a nossa memória”

(assinado: um moliceiro)

como eu era belo há tão pouco tempo

como eu era belo há tão pouco tempo

(murtosa; bico; 2009)

postais da ria (34)


perdidamente

perdidamente

inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando

a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer

dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu

sou eu

ahcravo_DSC_4488_ contra luz

(ria de aveiro; torreira)

crónicas da xávega (23) – dos homens do mar


agostinho trabalhito e massa

agostinho trabalhito e massa

fizeram a escola sentados
nos bancos de areia rente ao mar
aprenderam cedo a força das ondas
o gume afiado do norte pela madrugada
o salgado sabor dos dias amargos de pouco pão

a escrita que conhecem é sobre água
nem por isso efémera
que de geração em geração
de homem para homem
como se ontem fosse hoje e sempre
o mar é pauta onde ritmos e pausas
são marcados pelas notas das ondas
onde o maestro é o arrais

falo do mar
da música fora dos búzios
dos artistas
das companhas da xávega

bota que chega de palavras

ahcravo_DSC_8841_agostinho+massa_marco 11

(torreira; companha do marco; 2011)

postais da ria (33)


o fim está tão próximo quanto a vitória

o fim está tão próximo quanto a vitória

nada dizer

nem todos os dias são
muitos haverá em que
tu sabes
não pode ser
sempre nem nunca

sê no dia em que não
o mesmo que noutro dia qualquer
a razão encontra-la-ás se
razão houver mas
não será por isso

pelo que és
pelo que sonhas
pelo que queres que seja
vai

porque nada é o que

a vitória está tão próxima como o fim

a vitória está tão próxima como o fim

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

como se lágrimas pelo rosto


que dizer destes dias?

que dizer destes dias?

quisera entre as mãos
prender a água
lavar o rosto
como se terra
ávida de vida

gotas de outros rios
correndo pelas nuvens
deste tempo triste
onde mágoas à tona
retornam

quisera
como se lágrimas pelo rosto

mas elas teimam em não cair
o rosto atravessa seco os dias
as mãos agarram o ar vazias

quisera não deixar lágrimas
por herança
de tanto nas mãos as sentir

quisera
como se lágrimas pelo rosto

ahcravo_DSC_1305 ereira

(campos de ereira, 2008)

pedras haja


caminhar por aí

caminhar por aí

perdi a conta às pedras
com elas um caminho
diverso do inicial
como tudo
entre rascunho e obra
no meio à frente em torno
pedras sempre
caminhos

impossível
escolher o escolho
imprevisto

antes da vida a água
antes da água a pedra
primordial
enorme em torno do sol
sequiosa solitária a ser

perdi as pedras nas contas
desmemoriado caminho

pedras haja

ahcravo_DSC_6763 homem cbr c

(coimbra, 2014)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)

postais da ria (31)


POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)

ei-los que chegam como se não

ei-los que chegam como se não

viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns

títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim

não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?

pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes

ahcravo_DSC_6270_ribeira de pardelhas

luminosamente vêm chegando

(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)