postais da ria (50) – da liberdade


a sobrevivência na ria de aveiro

a sobrevivência na ria de aveiro

ser em cada dia
as mãos por dentro
limpas de brumas

caminhar
solto de amarras
compromissos silenciosos
aspirações irreveladas

a liberdade é um grito
contra os muros
um voo puro de ave
num céu desconhecido

nada mais te digo

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(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

ahcravo_DSC_1041_ zé rebeço+vela
(torreira; regata da ria, junho, 2014)

postais da ria (49) – andam por aí


a serenidade convida a pensar

a serenidade convida a pensar

conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para

não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de

gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam

esperam sempre
andam por aí

ahcravo_Imagem 2385 bateiras marina noite

(torreira; marina dos pescadores)

crónicas da xávega (31)


aguenta delmar, não largues o calão

aguenta delmar, não largues o calão

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

ahcravo_DSC_2632_calão _marco 14

(torreira; companha do marco; 2014)

postais da ria (48)


a aparente calma da ria

a aparente calma da ria

aos senhores da terra

de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é

erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal

ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco

quem disse que podieis?

ahcravo_DSC_7092_bico

(murtosa; cais do bico)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)

crónicas da xávega (29)


e o s. josé galga a onda

e o s. josé galga a onda

perde-se no longe do tempo
o haver mar

tarde chegou o homem
a estas praias
trazido por caminhos
perdidos por aí

cedo venceu o medo
não fora homem
cedo ganhou o mar
não fora gente
cedo comeu o estranho pão
não tivera fome

resistem ainda alguns
em praias quase desertas
abandonados à sua sorte
pelos donos da terra

eles que vencem o mar
que não temem o medo
morrem nas secretarias
assassinados por burocratas

perdem-se no tempo
sobrevivem

heróis do mar

heróis do mar

(praia de mira; companha do zé monteiro)

crónicas da xávega (28) – e tu?


estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase

tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo

sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe

os mortos agradam a todos
porque estão

e tu?

virá o sol

virá o sol

(torreira; companha do marco; 2012)