crónicas da xávega, torreira (11)


 

 

a escolha e eu ... ando por aí

a escolha e eu … ando por aí

 

meditação à beira mar

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (13)


 

os cisnes ainda vogavam em bando

os cisnes ainda vogavam em bando

 

da beleza

 

pesquisar qual a utilidade da beleza
é procura inútil

a beleza acontece
sem motivo outro
que beleza ser

a bica da proa e a decoração
dos moliceiros
são disso evidência
aconteceram para serem

aconteceram
cada vez mais
para terem sido

sento-me à mesa da ria
cravo nela os cotovelos
à sua roda os meus e todos
os que nela foram um dia

todos
estão aqui agora
mais que nunca

vogando dentro
do mais belo
barco do mundo

 
(ria de aveiro; canal de ovar; 2010)

crónicas da xávega, torreira (10)


 

 

 

há quem trabalhe e quem queira mandar no que desconhece

o delmar viola repara o saco da xávega

falta-lhe a cadeira de coiro
recostável com rodinhas
falta-lhe o ar de quem julga saber
e por isso fala do alto da sua ignorância pesporrenta
ditando leis de que ignora
o como e porquê
não é um senhor

sabe que sem redes reparadas
não há peixe
que sem ele não há janta

corpo miúdo franzino
seco e com genica
conhece quase toda a gente
não é de silêncios
uma conversa é sempre bem vinda

chama-se delmar
de alcunha é viola

não sei há quanto tempo
o conheço
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (10)


para a ria com amor

abraçar a ria
como se nela o mundo
um sorriso
o amor
todo

abraçar a ria
para além dos homens
ser maior que eles
na pureza
de amar
 
abraçar a ria
ser nela a criança de novo
na ria na ria
na ria

(torreira; procissão das bateiras; 2014; na bateira da esmeralda e o joão)

crónicas da xávega, torreira (8)


 

 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

estão lusas as águas
aquietado o mar
longe o peixe

é este o tempo de terra
da espera

dias virão
de peixe haver
o mar trabalhar

vejo ouço e sei
espero que nos dias a vir
não aconteça
o que não desejo

mas
como aqui se diz

“vós é que sabeis”

 
(torreira; companha do marco; jun,2014)

 

 

notícias da xávega, torreira (7)


 

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

 

chama-se aurora
traz nas veias sangue de arrais
faustino de nome próprio
homem de estórias muitas
com nome de rua
e descendentes abonde

 
chama-se aurora
mulher do mar da torreira
senhora do seu nariz
senhora de um físico
que põe em respeito
qualquer um
e faz dela

 

mulher de mar
mulher da torreira
na companha

 

(torreira; companha do marco; jun 2014)

 

 

postais da ria (5)


 

 

um moliceiro é assim

um moliceiro é assim

assistir ainda aos últimos
aos que ainda
emprestam beleza à ria
cisnes últimos desta laguna
que a aveiro emprestou a beleza

ide
fotografai o que deles resta
os amputados
os bastardos fibrosos aleijados
que jazem
no canal principal

ide
inventaram uma outra ria
para vender em postais
uns barcos de fazer de conta
para quem memória não tem
dos cisnes reais e seus vogares

assisto ao fim de um tempo
e dói-me
não o ter sido um dia
mas o cinismo com que se constrói
o amanhã

postais?
postais há muitos

 

(ria de aveiro; torreira; moliceiro do mestre zé rito; jun.2014)

notícias da ria (3)


 

mariscar na ria

mariscar na ria

sou assim
falta-me tempo para ser
perfeito
sou aquilo que sou num tempo
que é meu
enquanto

desculpem-me os que vêem em mim
mais do que aquilo que sou

não tenho ambição que não a de estar vivo
o tempo que me for dado
e nele ser tudo o que possa sem ser mais
do que isso

a perfeição é coisa que me é estranha
ser imperfeito
poderá ser defeito
mas é isso que sou
sem ter pretensão de

estou vivo e grito
não canto
que é coisa de artista

gritarei enquanto respirar

 
(ria de aveiro; torreira; 2014)