pesado o fardo
mais ainda a idade
maior
a necessidade
macia a areia que tu
é chão doloroso
traiçoeiro
sumidoiro de forças
quase sem
curvam-se os homens
não vergam
são eles
são sempre eles
mesmo se do mar
vindos
ao mar tornarão
de manuel antónio pina
Cuidados Intensivos
A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?
o último vídeo
esperam os homens
a rede
no fim o saco
quem sabe
o peixe
rente à areia
corre a cala
avista-se o calão
o peixe
não
tudo tem seu tempo
aqui
onde o tempo corre
pelos sulcos rasgados no rosto
salgados viveres
amargos
(à memória do arrais zé murta, torreira, 2008)
não nos queiram contar
fomos muitos
fomos indignação
protesto
fomos gerações
unidas massacradas
mas não vencidas
não nos queiram contar
fomos bastantes
revivemos o que pensávamos
já não
fomos ainda os mesmos
e muitos mais
isso te digo
cantámos e dissemos
basta!
basta!
ouviram?
estaremos cá
sempre
por nós
os que pela mão
ensinámos
a serem
estaremos cá
sempre
BASTA!
o vídeo
de manuel antónio pina
A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
Do livro “Aquele que Quer Morrer”
o vídeo
do autor:
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
“Os gatos”, de Manuel António Pina
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)
para ler com o vídeo