os moliceiros têm vela (92)


dos espectadores

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o poeta sentou-se
não era ainda o tempo das palavras
mas o de olhar e sentir

o tempo passou
e o poeta sentado mudo e quedo
espreitando o mundo

passaram as palavras
passou o poeta
ficou apenas o tempo

condenação de espectador
é ser nada
quando pensou ser tudo
até poeta

ahcravo_DSC_4213torreira; regata do s. paio; 2012)

postais da ria (78)


sonhei um dia ser ave

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vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas

escutei-os no recato da margem

vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo

sonhei um dia ser ave

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(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (88)


é

o  moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

o moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

recuso as palavras redondas
nascidas
de bocas onde muitas línguas

só conheço o caminho agreste
parco de sombras
linha recta entre hoje e o devir

prefiro a fresca água das fontes
às bebidas finas das mesas grandes
onde banquete é fome de muitos

recuso os cemitérios de vivos
não é fácil nem difícil
é

quem disse que ganhar é fácil?

quem disse que ganhar é fácil?

(ria de aveiro; regata da ria; 2014)