postais da ria (30) – um dia falarei das pedras


ainda os cisnes voam

ainda os cisnes voam

faço-me no caminho
que faço
cúmplices efémeros
neste fazer-mo-nos

escuto o vento por
vício
abro-lhe os braços
o corpo
vou por onde

em tudo somos
o início
a recusa de ficar
ser lago

somos os dias
e os dias são imensos
porque nós neles
desencaminha-mo-los

um dia falarei das pedras

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(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (29)


ti costeira, o pescador solitário

ti costeira, o pescador solitário

(para o josé luis peixoto)

como se súbito a luz
fiquei com a noção clara
de que não lerei
a tua obra completa

perder o futuro
é saber-se
e eu soube-me
nas tuas palavras

em galveias

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(torreira, 2013)

em 2014 o ti costeira já não deitou a bateira à ria

postais da ria (28)


necas lameirão e a pintura de um moliceiro

necas lameirão e a pintura de um moliceiro

(a propósito de “galveias”, o último do josé luis peixoto)

apetece-me não dizer nada
não juntar palavras
na tentativa de ao fazê-lo
dar algum sentido
a coisa nenhuma

não escrevo para
escrevo porque

estendo os braços sobre o tempo
abraço um nome
tantos nomes
um corpo
tantos corpos
a memória dos outros inscrita em mim

apetece-me não dizer nada
a leitura das grandes obras
deixa-me sempre um vazio
uma noção da pouca valia do que
por aqui vou deixando
sem pretensões
mas vou deixando

vou deixando

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(torreira, 2014)

postais da ria (27)


o fim da maré é a hora do regresso

o fim da maré é a hora do regresso

dizem-se pescadores
registam-se e resistem como tal
vêm de barco e só por isso
a ilusão se mantém

mais não foram
que lavrar a lama
colher frutos
não semeados

é parco o que na mesa fica
muitos e grandes são
os que lhes comem gorda fatia
do que por direito deles seria

vêm de longe uns
nada sabem
porém comem

de perto outros
tudo controlam
e fartam-se de tanto

há beleza que baste
para iludir o real

a ria está povoada de medos

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(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

postais da ria (26)


ria de aveiro; regata da ria, 2014

ria de aveiro; regata da ria, 2014

a propósito o moliço

chamam-se moliceiros
porque à apanha de moliço
homens e barcos corriam a ria
que as terras férteis consumiam

colhiam-no do fundo
e era mais caro na venda
se à superfície dele se dizia
arrolado
misturado com lodo secava
nos cais
e era vendido a preço mais baixo

no mesmo catálogo
digo hoje dos amigos
dos do fundo
dos que ainda do fundo
me fertilizo e ganho os dias

aos arrolados
estou velho demais
para com eles
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o princípio da incerteza


por momentos os cisnes de novo

por momentos os cisnes de novo

éramos jovens e voávamos
pelos dias
sem sobressaltos de amanhã
éramos um bando
voávamos assim

que ontem dentro do hoje?

o voo é agora incerto
as asas foram perdendo penas
a pena que eu tenho
de não as ter
é saber que as tivemos

rasamos os dias
sem saber onde e quando
poisaremos

o agridoce dos dias

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2014)

sou mais um


um por todos e todos

um por todos e todos

do muito andado
ficou o ser daqui
sem aqui ter nascido
que é esta a terra onde as raízes
mergulham

é esta a minha gente

o sangue que me correr nas veias
enquanto
carreia sal destas águas
e das outras onde tudo começou

ser eu deles
serem eles de mim
sentimos alguns
sentimos muitos
sentimos os que

por isso me dói
tudo e tanto
por isso não assisto
sou mais um

(ria de aveiro; torreira; corrida de chinchorros; s paio 2014)

antevisão da ria


ensurdecedor este silâncio

ensurdecedor este silêncio

“a ria está morta. não vejo bateiras”
(palavras de meu pai no verão de 2014)

estou vivo e assisto

tudo tem o seu tempo
não descontando o tempo
que os homens ao tempo roubaram

o que foi não voltará a ser
haja quantos programas inventem
mataram e deixam morrer

vendilhões de um templo outro
vendem-se e vendem os que ainda não
pantomineiros de um futuro inexistente

estou vivo e assisto

as palavras são apenas isso
palavras
as imagens a denúncia insuficiente
a beleza
ilusão para quem não tem outra memória

já é pouca a vida que resta
ao que resta de ter havido

a solidão ameaça os dias
depois de todos terem partido

estou vivo
mas não para isto

(ria de aveiro; torreira)

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