cai a noite


 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

 

uma guitarra celebra paredes

enquanto na lama da ria

uma mulher morde a sobrevivência

na apanha de amêijoas onde já ninguém

 

a miséria mais dura

convive lado a lado com a beleza da música

criando uma atmosfera de irrealidade insuportável

 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

quisera saber como acolhê-la

é irrevogável


nevoeiro ....

nevoeiro ….

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu mesmo à terra

 

 

 

os vendilhões do templo

 

reunidos em plenário

 

depois de concluírem que nada

 

mais tinham para vender

 

decidiram

 

venderem-se a si próprios

 

e aos seus

 

(que não são deles mas como tal foram tratados)

 

 

 

é irrevogável

 

cristo desceu à terra

 

pelo menos a esta

 

onde tudo é possível

 

mesmo o inimaginável

 

 

 

em verdade vos digo

 

que a mesma anda por aí perdida

 

 

 

traz-me água


 

de saída

de saída

traz-me água

da mais pura que encontrares

para beber não será

que limpezas quero fazer

nesta terra (des)governada por estrangeirada gente

ao serviço de quem mais der

 

traz-me água

da mais suja que encontrares

para beber não será

baldes muitos encherei tantos quantas

cabeças houver onde os despejar

 

traz-me água

da mais pura que encontrares

que esta sim para beber será

sede que na garganta trago

seca de tanto gritar

 

traz-me água

não percas tempo a procurar

que a minha terra arde

e aos que o fogo atearam a todos quero afogar