não sabem
não sabem nunca
se o regresso
terá a luz da partida
sabem apenas
que quem não parte
partiu há muito
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
uma guitarra celebra paredes
enquanto na lama da ria
uma mulher morde a sobrevivência
na apanha de amêijoas onde já ninguém
a miséria mais dura
convive lado a lado com a beleza da música
criando uma atmosfera de irrealidade insuportável
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
quisera saber como acolhê-la
é irrevogável
cristo desceu mesmo à terra
os vendilhões do templo
reunidos em plenário
depois de concluírem que nada
mais tinham para vender
decidiram
venderem-se a si próprios
e aos seus
(que não são deles mas como tal foram tratados)
é irrevogável
cristo desceu à terra
pelo menos a esta
onde tudo é possível
mesmo o inimaginável
em verdade vos digo
que a mesma anda por aí perdida
traz-me água
da mais pura que encontrares
para beber não será
que limpezas quero fazer
nesta terra (des)governada por estrangeirada gente
ao serviço de quem mais der
traz-me água
da mais suja que encontrares
para beber não será
baldes muitos encherei tantos quantas
cabeças houver onde os despejar
traz-me água
da mais pura que encontrares
que esta sim para beber será
sede que na garganta trago
seca de tanto gritar
traz-me água
não percas tempo a procurar
que a minha terra arde
e aos que o fogo atearam a todos quero afogar