os moliceiros têm vela (123)


o meu amigo ti zé rebeço e uma nota à parte

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bravo!

antes do início da regata da ria, o ti zé rebeço, fez uma pequena demonstração com o seu moliceiro.

aos 75 anos, a fazer 76, quem estava na marina de recreio, pôde admirar a energia e a arte do mais antigo moliceiro da ria.

na tripulação o mais jovem velejador de moliceiros, o zé pedro.

é extraordinário assistir ainda a provas desta natureza dadas por um homem que nasceu na ria e faz dela a sua bandeira.

parabéns ti zé, saibam vê-lo e entender a mensagem que transmite aos mais novos e aos que gostam de moliceiros: resistir até morrer.

(nota: entrei na página do município da murtosa e, no canto inferior do lado direito, está anunciado um edital intitulado “Elaboração de um Projecto de Regulamento de Utilização do Porto de Abrigo para Pescadores na Torreira” – http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7861&divName=900&id_class=900.

nestes casos é de norma e regra, publicitar a proposta da autarquia, ou da entidade responsável, e pedir aos munícipes, ou a todos aqueles cujo regulamento abrange, sugestões de alteração à proposta.

não é isso que acontece no edital. não é apresentada qualquer proposta e são pedidas sugestões, no prazo de 10 dias úteis. como o edital é de 18 de junho, as sugestões devem ser enviadas na semana que vem.

então a autarquias pede sugestões e não sugere nada? não existe, ao menos, um esboço de regulamento sobre o qual os munícipes se possam pronunciar?

nunca vi, nem sei se voltarei a ver noutros locais esta forma estranha de fazer a consulta aos munícipes. serão modernices, desconhecimento, ou traz água no bico?

não sou pescador, mas se o fosse, soubesse consultar a internet e tivesse alguma experiência sobre como funcionam este tipo de editais, fazia uma única sugestão:

QUERO SABER QUAL É A PROPOSTA DA CÂMARA MUNICIPAL.)

longe de tudo isto, o meu amigo ti zé rebeço, veleja na ria e no coração de todos os murtoseiros.

ele é a murtosa

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(torreira; regata da ria; 2015)

moliceiros, uma paixão


moliceiros, uma paixão

o grande ti zé rebeço

o grande ti zé rebeço

(o coração tem razões
que a razão desconhece)

quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia

quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada

quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança

quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas

sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro

torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)

crónicas da xávega (72)


o meu amigo alfredo amaral

o meu amigo alfredo

o meu amigo alfredo

o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem

escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte

durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue

companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar

sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer

espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande

o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino

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(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (119)


retrato de quem nele se revir

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serem os altares poucos
pequenos os palcos
para tantos artistas
com asas no peito
sem rosto visível
acrobatas do vazio

como pode ser grande um país
com tanta gente piquena
sabedora de tanto
conhecedora de muito mais
habitantes de janela

estrelas decadentes
em busca de um céu
quem sabe se debaixo
da terra que pisam

vou pela sombra
que estes sóis não são
de confiar

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

o moliceiro “Marco Silva”


para o arrais marco silva

e partiu de vela erguida

e partiu de vela erguida

haver no homem o sonho
a força o querer o fazer

o sentir da casa cheia
os amigos os filhos

um barco onde todos
se abraçam se sabem são
voa na ria um barco novo
ao leme um homem que sonhou
soube dar ao sonho a forma de barco
um moliceiro a que emprestou o nome

vogam os dois na ria
e o presente sorri de ainda
haver homens assim por aqui

é possível construir o futuro

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ria de aveiro; torreira; 20 de junho de 2015

o vento era pouco onde a vontade foi muita, mas o “Marco Silva” velejou pela primeira vez

os moliceiros têm vela (118)


eu e o outro somos um

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cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

sou a memória ao contrário
cheio de tudo vestido de nada
desaprendi de sorrir ao vento
de tanto o vento me cortar o sorriso

restam-me as mãos e os olhos
este bicho inquieto que sou
rasgar silêncios procurar ser voz
teimoso e incredulamente crédulo
fora do baralho e o jogo corria bem

cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

não estranho por isso
que não me entendam
não me oiçam nem me falem
sou de menos para mim
e de mais para muitos
sou o que incomoda por ser

eu e o outro somos um

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(torreira; regata da ria; 2011)