crónicas da xávega (69)


mulher do mar

albina

albina

estendo os olhos até onde
uma linha divide mar e céu
ou os une e confunde

nela escrevo o meu nome
eu inteira sem erros
mulher mãe companheira

o meu tempo é este
em que haver na mesa pão
amassado com sal

é segredo de mar
arte de arrais
suor da companha

albina

albina

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (114)


(para uma menina grande
que nunca será daqui)

miragem real

miragem real

preciso de falar de ti

olho e vejo e não vejo
o que vêem os teus olhos
vejo-te e uma lágrima

braços e mãos em movimento
permanente e aleatório
os sons guturais que emites
palavras de uma língua só tua
olhos como se todo o corpo eles

que vês quando olhas?
porque sorris?
que mundo é o teu?

olhas-me olho-te
tenho a certeza do desencontro

todo o tempo cabe num instante

todo o tempo cabe num instante

(torreira; regata s.paio; 2010)

o meu amigo joão manuel brandão


a ria no rosto

joão manuel brandão

joão manuel brandão

escrevo o teu rosto
sem palavras
vejo-te para que te
saibam e oiçam

não há silêncio na ria

não sei como dizer-te
sinto-te
e semeio-te como és

a beleza da ria
é o retrato do teu rosto

joão manuel brandão

(torreira; cabrita alta)

os moliceiros têm vela (110)


carta em branco

ahcravo_DSC_5900 bw

escrevi uma carta em branco
com destinatário e remetente

até hoje
não recebi qualquer resposta
mas tenho a certeza de que
a escrevi

não me entenderam com certeza
mas também não volto a insistir

missão cumprida

ahcravo_DSC_5900

(torreira; regata do s. paio; 2014)