a corda e a mão
a mão na corda
ou a corda na mão?
o que diz a mão da corda?
e a corda da mão?
quando uma?
quando a outra?
tudo tem o seu momento
isso te digo
sê ambas e serás
(torreira; companha do marco; 2015)
calaste-me pedras
não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro
quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo
as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam
as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória
calaste-me pedras
(torreira; marina dos pescadores)
para o meu amigo dr. peres
não sei onde está agora
aquilo que do teu corpo
em cinzas tornado foi
recordo as tuas palavras
“então e o meu amigo como vai?”
e eu ia com a tua ajuda
a música a poesia a pintura
um mundo onde habitar
era ter um amigo dentro
cuidavas mais dos outros
que de ti
talvez por isso te descuidaste
e já não és
escrevo só para te dizer
obrigado
obrigado por teres sido
(torreira; regata do s. paio; 2010)
lembro-me agora, meu amigo, que nunca chegámos a comer, juntos, uma caldeirada de enguias
“primeiro de agosto
primeiro de inverno”
(ditado da torreira)
chove em agosto
limpam-se as cores
tudo adquire por momentos
uma beleza lavada
onde os olhos se renovam
chove em agosto
e eu esqueço-me
dos insignificantes
estou vivo e isso me basta
(torreira; marginal da ria; 13/08/2015)
nunca
duas faces têm os dias
nunca saberás o peso
do fardo de ser
até te pesar nos ombros
o amargor das palavras
onde amor devia
duas faces têm os dias
verga-se não o corpo
mas o que dentro dele
mais frágil e sensível
é no mar que afogas
a raiva de seres assim
dares a outra face
nunca
(torreira; companha do marco; 2014)
o vídeo da exposição, explicado pelo mestre firmino tavares