crónicas da xávega (49)


o meu amigo nicole

o nicole, a albina e o marco

o nicole, a albina e o marco

como grãos de areia
os dias e os amigos
vão-nos deixando perdidos
nas praias da memória
sem redes nem peixe

eu sei que estás aqui
nicole
porque te vejo e te sinto
no olhar-te

há dias para fazer
e outros para lembrar
há uma imagem
o teu rosto nela e a mão
as mãos falam-me

e tu
tu partiste para ….
não sei quando
para regressares agora

nada é
mas tudo pode ser

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

(torreira; companha do marco; 2010)

os moliceiros têm vela (56)


para o arrais marco

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

como as árvores
os amigos

como os diamantes
raros são

um barco voga lento
um amigo dentro

quando o homem é barco só lhe resta navegar

quando o homem é barco só lhe resta navegar

(torreira; regata do s.paio; 2010)

os moliceiros têm vela (51)


do ouvir

como se planassem

é esta a luz, é este o cantar

uma voz antiga
debruçada na janela
dos meus olhos
canta

canta como se
ouvisse outras vozes
mais antigas
cantar

cantar palavras de luz
é destino
de quem nasceu para
ouvir

ouve-as comigo

foi para ti que cantei esta canção

foi para ti que cantei esta canção

(torreira; regata do s.paio; 2010)

vivelinda bastos


a ria não dá para camaradas

a encomenda

a encomenda

um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha

a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores

mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca

a ria não dá para camaradas

e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas

o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor

são as  mulheres da ria

o esgar do esforço

o esgar do esforço

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (68)


meditação com a ria em fundo

a solidão, o silêncio, o corpo dorido, mariscar

a solidão, o silêncio, o corpo dorido, mariscar

tenho o tempo
que o tempo me der

sou o meu tempo
com todo o tempo
que lá couber

não mato tempo
nem o de antes
nem o que depois

não roubo tempo
ao tempo
que perder tempo é

ao tempo dou
tudo o que tenho
e ele quiser

um pouco de mim
num tempo qualquer

o que os olhos vêem o corpo não sente de tanto doer

o que os olhos vêem o corpo não sente de tanto doer

(ria de aveiro; torreira; mariscar)