postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (71)


aos moliceiros

mete água? escoa!

mete água? escoa!

homens inteiros
até ao fim
a palavra na mão
que aperta

homens de fibra
feita na lide
dos dias de norte
terras muitas
escritas no corpo
sofridos dias

levarão com eles
mais que o corpo
a história da terra

água que entra tem de sair

água que entra tem de sair

(ria de aveiro; regata de ria; 2014)

postais da ria (70)


somos nós

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o meu país é gente
não uma geografia de sol mar
guardanapo no braço dobrado
mesmo se invisível
servil no serviço

o meu país tem muitos nomes
com título anteposto ou não
desempregados sem abrigo
ordenados em atraso
férias em paraísos longe
casas muitas cavalos bastos

o meu país é de carne e osso
para muitos mais osso que carne
para outros poucos só lombo

o meu país está velho e cansado
ou jovem e emigrado

o meu país são tantos
que dizê-lo numa só palavra
é não saber o que é

o meu país somos nós

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(ria de aveiro; torreira)

o meu amigo joão magina


o meu amigo joão magina

do pai o  o nome também

do pai o o nome também

nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua

a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas

por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas

pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue

e o futuro incerto

da família a alegria

da família a alegria

(torreira; marina dos pescadores)