meditação breve
numa terra de espectadores
ser actor é correr riscos
escuto o silêncio
(ria de aveiro; torreira)
provocar é preciso
não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te
aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu
será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”
se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito
não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste
(ria de aveiro; torreira)
somos nós
o meu país é gente
não uma geografia de sol mar
guardanapo no braço dobrado
mesmo se invisível
servil no serviço
o meu país tem muitos nomes
com título anteposto ou não
desempregados sem abrigo
ordenados em atraso
férias em paraísos longe
casas muitas cavalos bastos
o meu país é de carne e osso
para muitos mais osso que carne
para outros poucos só lombo
o meu país está velho e cansado
ou jovem e emigrado
o meu país são tantos
que dizê-lo numa só palavra
é não saber o que é
o meu país somos nós
(ria de aveiro; torreira)
o meu amigo joão magina
nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua
a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas
por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas
pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue
e o futuro incerto
(torreira; marina dos pescadores)