companha do marco, em colaboração com jorge bacelar


são estes os heróis
que o hino canta

ainda o sol não nasceu
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama

afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do incerto pão

aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não

Poema de ahcravo

 

 

mais eu que nunca


companha do marco, 14 de junho de 2012
estou muito longe
de tudo
muito perto
de mim
encho-me de mar
e não há palavras
que digam sequer parte
do que sinto

quem sou
é outro
sendo o mesmo que fui
mas muito maior que eu
lavei todo o meu corpo no mar
limpei-me das impurezas urbanas
reencontrei o vernáculo
dos homens que não viram as costas
às ondas

pesco neles o pão
para estas palavras poucas
e ofereço-vos
do muito que sou agora
o tanto que me ofertaram

estou muito longe
de tudo
mais eu que nunca

(torreira; 14 de junho de 2012)

barco de mar


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sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)

ganhar o pão


ti alfredo fareja (falecido)

 

chega o saco à praia

com ele a esperança

de um bom lanço

farto de carapau

paga de tantas horas

de suor duas vezes salgado

 

chega o saco à praia

mas a mais das vezes

só rede

que peixe

as traineiras de noite

tomaram de assalto

invasoras da costa onde

outrora piratas

também

 

é este o momento

em que o mar

pagará ou não

a quem no mar tentou

mais uma vez

ganhar o pão

 

(torreira; 2007)

 

 

ombros de arrais


(torreira; 2007) – zé pato+arrais zé murta

verga-se o bordão
ao peso do rolo
não se vergam os homens
que mais são

de areia se faz
o caminho do mar
a companha é isto
o sermos todos o mesmo
e sabermos
quando um mesmo é mais
é esse o arrais

não é mais só por ser
é mais porque em tudo é
da voz às mãos
dos olhos ao corpo
ele é a companha
 
madrugada cedo
a quotidiana leitura do mar
o saber se
há ou não mar de largar
tarefa sua e sofrida
 
ombros mais largos
não
apenas ombros
de arrais


peso-me de mar


ti miguel bitaolra

pesadas passadas

enterram na areia

mais que os pés

enterram-me aqui

que este é o caminho

o meu caminho

 

o bordão

a que tantos se agarram

para andar

prende-me os passos

amarra-me ao chão

arranca-me os braços

 

sou

esta força escondida

no mais dentro de mim

este destino de ter aqui

um caminho

 

peso-me de mar

 

 

(torreira, 2007)