pelo na venta


ermelinda bitaolra

(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)

tem pelo na venta
dizem

é duro viver aqui
arrancar com as minhas mãos
o pão ao mar
ser como o meu homem
sem favor de ninguém

o sal queima e endurece a pele
envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece

tenho pelo na venta
sim
quem o quiser negar
que venha ver
trabalhar o mar

ir ao mar

ir ao mar


 

de novo o barco se faz ao mar
sempre na busca do pão

entre gritos de alegria e medo
o barco avança de braços abertos

as águas abrem-se para o receber
a mãe não nega o filho
antes resiste e cede

a cena repete-se
o homem da máquina estava lá

um dia ambos desaparecerão
ficará só o mar

                                                                 

(praia de mira; 2009)