deixem-me respirar
há quem sinta falta de ar
eu sinto falta de mar
deixem-me respirar
(torreira; companha do marco; 2012)
continuo a caminhar
admiro os que a palavra vestem
como se coisa de usar fosse
consoante o momento o local
a audiência
admitem a inexistência da memória
julgando-se senhores do saber
do dizer e fazer constar
curvam-se perante eles os que
pretendendo vir a ser
mais não serão
que o terem sido úteis quando
vivem todos de ilusões
sorrio e continuo a caminhar
(torreira; companha do marco; 2012)
o meu amigo alfredo amaral
o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem
escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte
durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue
companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar
sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer
espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande
o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino
(torreira; companha do marco; 2013)
mulher do mar
estendo os olhos até onde
uma linha divide mar e céu
ou os une e confunde
nela escrevo o meu nome
eu inteira sem erros
mulher mãe companheira
o meu tempo é este
em que haver na mesa pão
amassado com sal
é segredo de mar
arte de arrais
suor da companha
(torreira; companha do marco; 2013)