crónicas da xávega, torreira (10)


 

 

 

há quem trabalhe e quem queira mandar no que desconhece

o delmar viola repara o saco da xávega

falta-lhe a cadeira de coiro
recostável com rodinhas
falta-lhe o ar de quem julga saber
e por isso fala do alto da sua ignorância pesporrenta
ditando leis de que ignora
o como e porquê
não é um senhor

sabe que sem redes reparadas
não há peixe
que sem ele não há janta

corpo miúdo franzino
seco e com genica
conhece quase toda a gente
não é de silêncios
uma conversa é sempre bem vinda

chama-se delmar
de alcunha é viola

não sei há quanto tempo
o conheço
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (8)


 

 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

estão lusas as águas
aquietado o mar
longe o peixe

é este o tempo de terra
da espera

dias virão
de peixe haver
o mar trabalhar

vejo ouço e sei
espero que nos dias a vir
não aconteça
o que não desejo

mas
como aqui se diz

“vós é que sabeis”

 
(torreira; companha do marco; jun,2014)

 

 

notícias da xávega, torreira (7)


 

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

 

chama-se aurora
traz nas veias sangue de arrais
faustino de nome próprio
homem de estórias muitas
com nome de rua
e descendentes abonde

 
chama-se aurora
mulher do mar da torreira
senhora do seu nariz
senhora de um físico
que põe em respeito
qualquer um
e faz dela

 

mulher de mar
mulher da torreira
na companha

 

(torreira; companha do marco; jun 2014)

 

 

notícias da xávega, da torreira (3)


 

 

quim baía

quim baía

os dias correm com sol
e norte muito à tarde
o costume nesta costa
vai-se ao mar quando
se pode
pesca-se o que a sorte ditar

“deus ajuda quem faz por isso”
a voz do arrais

o quim sorri
sorri sempre
não lhe conheço outra expressão
no rosto

gosta de fotografia
da sua
mais que nenhuma outra
vê todas as que pode
sorri

hoje
é o dia de ser aqui
o rosto da notícia
(torreira; companha do marco; 2014)

 

carapau acamado


 

a escolher carapau em cima do atrelado

a escolher carapau em cima do atrelado

 
em linguagem de pescador, isto não quer dizer que o peixe esteja doente, mas que anda em grande quantidade.

hoje o dia correu bem, fizeram-se 3 lanços, o carapau era lindo e de bom tamanho.

na xávega há dias assim, para contrariar a maior parte do ano, em que se está parado, e as muitas vezes em que não se ganha para a despesa.

 

(torreira; companha do marco; jun.14)

fazer pelo hoje


 

 

como era duro

como era duro

 

 

foi-se o tempo
regressam os dias
a isso chamam
recriar

recreiam-se alguns
com o recriar
na contemplação
do como era
tudo sobrevoam
sem poisar no ter sido

não
não era assim
era

vêm de longe
ver o que nunca viram
e vão sem terem visto
porque nunca nada é
o que foi quando foi

é tempo de recuperar a memória
de recriar
seja este o tempo de
preservar o presente
para que não seja ele também
passado já

os que da xávega vivem
dir-vos-iam isto
se fossem mais que pescadores

 

(torreira; recriação da xávega com bois, setembro 2013)