os moliceiros têm vela (137)
postais da ria (92)
crónicas da xávega (87)
os moliceiros têm vela (136)
a vida não é uma parábola
depois de o executarem
disseram que não era culpado
incapaz de se levantar
o executado sorriu
um sorriso de cinzas
ainda hoje quando o vento
sopra do norte
vejo-as voar e cobrir de pó
tudo quanto a sul
afinal estava tudo na bíblia
como é costume
que tudo lá cabe excepto
a vida
que não é uma parábola
(torreira; regata do s. paio; 2014)
postais da ria (91)
calaste-me pedras
não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro
quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo
as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam
as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória
calaste-me pedras
(torreira; marina dos pescadores)
crónicas da xávega (86)
os moliceiros têm vela (135)
para o meu amigo dr. peres
não sei onde está agora
aquilo que do teu corpo
em cinzas tornado foi
recordo as tuas palavras
“então e o meu amigo como vai?”
e eu ia com a tua ajuda
a música a poesia a pintura
um mundo onde habitar
era ter um amigo dentro
cuidavas mais dos outros
que de ti
talvez por isso te descuidaste
e já não és
escrevo só para te dizer
obrigado
obrigado por teres sido
(torreira; regata do s. paio; 2010)
lembro-me agora, meu amigo, que nunca chegámos a comer, juntos, uma caldeirada de enguias
crónicas da xávega (85)
eu sou tudo o que aqui encontras
as encomendas, com identificação de morada para remessa, devem ser feitas para o meu endereço de email ahcravo98@yahoo.com


















