das causas
não tenho ilusões
procuro caminhos
tento não ser mais um
calo o silêncio
procuro a voz certa
a cada instante
ser homem de causas
é a causa de estar aqui
(murtosa; regata do bico; 2007)
o abraço que une o ti zé rebeço e o zé pedro, é a prova de que só não há futuro para os moliceiros com vela, se o não quiser quem manda nesta terra.
por experiência própria, sei que se a autarquia não quiser nada se faz. e eles sabem-no. foram eleitos pela esmagadora maioria dos murtoseiros, o que fizerem, ou não, é em nome dessa maioria e com o seu apoio, gostem ou não que eu o diga.
no passado foi o moliço, depois o moliço conviveu com as regatas. agora são as regatas e os passeios. e amanhã?
o zé pedro pode ser o futuro ou mais uma oportunidade perdida. com os poucos anos que tem, já é um arrais com provas dadas.
será que quem manda na terra não vê que ainda há jovens que sonham numa murtosa com moliceiros?
maldigo os chulos
terem os homens
o tamanho dos barcos
unidos na mesma frema
falo da terra e uso
a sua linguagem
palavras inventadas
como tudo o que é
marca de lugar
indescritível o amor
indizível o sentir
olho-os e invejo neles
o serem assim
tão uns dos outros
maldigo os chulos
(murtosa; regata do bico; 2008)
somos nós
o meu país é gente
não uma geografia de sol mar
guardanapo no braço dobrado
mesmo se invisível
servil no serviço
o meu país tem muitos nomes
com título anteposto ou não
desempregados sem abrigo
ordenados em atraso
férias em paraísos longe
casas muitas cavalos bastos
o meu país é de carne e osso
para muitos mais osso que carne
para outros poucos só lombo
o meu país está velho e cansado
ou jovem e emigrado
o meu país são tantos
que dizê-lo numa só palavra
é não saber o que é
o meu país somos nós
(ria de aveiro; torreira)
da terra e das gentes
amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória
falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português
ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste
tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério
que não descansem em paz
(torreira; regata da ria; 2014)