a espera
é uma árvore que cresce
para as raízes
crónicas da xávega (51)
os moliceiros têm vela (64)
do social
caminham silenciosos
sensíveis que são ao ruído
dos primeiros passos
aparecem sempre sobre o tarde
dizem de sua justiça
o não dever ser assim como é
arriscam pouco cautelosos
no segundo lugar
da segunda fila a sua cadeira
são a sombra que bebe do sol
o terem voz breve avinagrada
gosto deles como de
certos animais
longe
(murtosa; regata do bico; 2012)
o meu amigo joão magina
o meu amigo joão magina
nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua
a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas
por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas
pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue
e o futuro incerto
(torreira; marina dos pescadores)
os moliceiros têm vela (63)
o meu lado
escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é
escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode
escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado
cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado
e sei qual é o meu lado
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
crónicas da xávega (50)
os moliceiros têm vela (62)
os moliceiros têm vela (61)
crónicas da xávega (49)
o meu amigo nicole
como grãos de areia
os dias e os amigos
vão-nos deixando perdidos
nas praias da memória
sem redes nem peixe
eu sei que estás aqui
nicole
porque te vejo e te sinto
no olhar-te
há dias para fazer
e outros para lembrar
há uma imagem
o teu rosto nela e a mão
as mãos falam-me
e tu
tu partiste para ….
não sei quando
para regressares agora
nada é
mas tudo pode ser
(torreira; companha do marco; 2010)
os moliceiros têm vela (60)
deste estar aqui longe
por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires
eu em tudo
eu em nada
eu por aí
por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica
uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede
e eu ….
(murtosa; regata do bico; 2007)



















