ainda não
nunca parado no tempo
deixando o tempo passar
sou no tempo que passa
uma frase breve a respirar
(murtosa; regata do bico; 2009)
lembrando drummond
que coisa é o homem
carlos?
mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa
que coisa é o homem
carlos?
à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo
o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice
a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?
à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos
lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem
que coisa é o homem
carlos?
a força de querer ser
ou nada
(murtosa; regata do bico; 2010)
das palavras
gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto
gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para
ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito
ponto final parágrafo
(murtosa; regata do bico; 2007)
na página da internet da câmara municipal de murtosa encontrei, há dias, esta notícia:
“Moliceiro em reparação no Museu – Estaleiro da Praia do Monte Branco na Torreira
Quem, por estes dias, visitar o Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, na Torreira, Murtosa, terá a oportunidade de apreciar o trabalho minucioso de reparação de um barco moliceiro, pelas mãos hábeis do Mestre José Rito. Para além deste trabalho, o Mestre José Rito encontra-se, igualmente, a construir duas novas bateiras.
O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa, é um espaço peculiar de conhecimento e valorização das artes de construção de embarcações tradicionais, assumindo-se como um verdadeiro museu vivo do património marinhão.
No âmbito do protocolo, formalizado em 2009, com a Câmara Municipal, o Mestre José Rito – o único que, actualmente, exerce de forma permanente a arte da construção de moliceiros e bateiras, na área do Concelho da Murtosa – ocupa o espaço do estaleiro, onde executa o trabalho de construção e reparação de barcos, e, mediante a solicitação de escolas e grupos organizados, dá a conhecer os vários aspectos associados à arte que exerce. O Museu-Estaleiro está, de igual modo, aberto a todos aqueles que queiram observar os processos de construção e reparação das embarcações.”
fim de citação ver em:
http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7515&divName=116s154s4&id_class=4
ora cá está uma boa notícia que eu divulgo com todo o gosto – não estranhem por favor.
convido, todos os que puderem, a fazerem uma visita ao estaleiro e verem o mestre zé rito a trabalhar, nunca é tempo perdido, fazem-se boas fotografias e aprende-se com quem sabe.
agora só algumas notas – para não estranharem
não pensem que vão ver o mestre a fazer a recuperação do moliceiro dentro do estaleiro – aliás a foto não engana a esse respeito. e não vão ver por uma razão muito simples: não pode.
vão vê-lo a trabalhar no exterior, porque o estaleiro não tem dimensões suficientes para que nele caiba um moliceiro, só dá para bateiras. é um estaleiro virado para o futuro, fala-se de moliceiros mas não se constroem.
registem, dentro do estaleiro, a forma como foi aproveitada a luz natural e nunca mais se esquecerão daquilo de que é capaz a inteligência humana, quando posta ao serviço da ecologia na arquitectura….
quanto ao moliceiro que vão ver em reparação, desenganem-se se pensam que é um barco para navegar na ria, em substituição dos dois que foram vendidos para o turismo de amputados em aveiro. não, é um amputado do turismo de aveiro que veio para ser reparado.
esperanças?
assim se preserva o moliceiro naquela que é a sua pátria, depois queixem-se