avariado corpo
não meu
eu o outro
no corpo avariado
no espelho quem me vê
é o outro
não eu
eu fico escondido de mim
intemporal e são
são quase horas de
(torreira; companha do manel dias; 2005)
perdi a conta às pedras
com elas um caminho
diverso do inicial
como tudo
entre rascunho e obra
no meio à frente em torno
pedras sempre
caminhos
impossível
escolher o escolho
imprevisto
antes da vida a água
antes da água a pedra
primordial
enorme em torno do sol
sequiosa solitária a ser
perdi as pedras nas contas
desmemoriado caminho
pedras haja
(coimbra, 2014)
traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante
em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo
conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes
cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)
POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)
viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns
títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim
não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?
pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes
(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)
sem porto nem cais
areal onde varar
procurar na memória
nas imagens retidas
um poiso um lugar
barco sem terra
condenado ao mar
resta
esperar a onda
o instante exacto
largar
ganhar o longe
ser poiso de gaivotas cansadas
sorrir à espuma
o que há para além de mar?
(torreira; companha do marco; 2011)
faço-me no caminho
que faço
cúmplices efémeros
neste fazer-mo-nos
escuto o vento por
vício
abro-lhe os braços
o corpo
vou por onde
em tudo somos
o início
a recusa de ficar
ser lago
somos os dias
e os dias são imensos
porque nós neles
desencaminha-mo-los
um dia falarei das pedras
(ria de aveiro; regata da ria, 2014)
depois, muito depois dos homens, ficam alguns livros, muitas estórias e, por vezes, os nomes e imagens de alguns autores. ser efémero é ser humano, permanecer para além dos dias habitados é deixar obra.
com “galveias”, josé luís peixoto corre o sério risco de continuar a habitar esta coisa chamada vida, muito tempo depois de ter abandonado a casa que o acolheu, que nos acolhe. quando um livro nos dá prazer e trabalho, é um LIVRO. galveias é. o josé luís permanecerá.
fica aqui o registo possível da apresentação em coimbra, no café sta cruz, no dia 17 de outubro, de 2014 e um parágrafo de “galveias”, que me marcou pela beleza, simplicidade e trabalho de sentir que o josé luís consegue escrever assim.
“ANTES, COSTUMAVA GOSTAR DE SETEMBRO. Na sua lembrança, era um mês afável, que tratava os dias com uma cortesia fina, ligeiramente arcaica. Começava mais quente, a tocar em , agosto, e acabava mais fresco, pronto a dar a vez a outubro, sem escândalo, com a natureza preparada, sempre em respeito e lisura.”
José Luís Peixoto, in “Galveias“
clip 1
clip 2
clip 3
clip 4
(para o alfredo amaral)
há um perto longe
por dentro das palavras
amigo tem
m de mar
a de alfredo
o de ondas
há uma mão estendida
um abraço
uma onda que não morre
na praia dos dias
longe do mar
dás-me o que te não posso dar
o sorriso da memória
dos dias vividos ao pé do mar
há homens assim
que não vencendo as ondas
por ficarem em terra
vencem a geografia
e se excedem de tanto
a criança fez-se homem
o jovem envelheceu
a amizade nunca aprendeu
a linguagem do tempo
hoje vieste ter comigo