uma imagem tem sempre, pelo menos, uma mensagem


(trabalho da Artifex Design)

(trabalho da Artifex Design)

 

quem não conhece o moliceiro – o barco – é com esta imagem que fica a identificá-lo. uma bela imagem, bem concebida, com cores vivas, apelativa.

mas ….

e o mas é que me perturba e poderá perturbar alguns: o moliceiro é um barco com vela. faz-se excepção aos “amputados” que estacionam no canal de aveiro e fazem “passeios” turísticos em pista fechada. não são só moliceiros, são mercantéis (saleiros, em aveiro) e barcos que misturam tudo e nada são.

se a “pátria do Moliceiro” assume este símbolo como imagem de marca, é o assumir de que o futuro do moliceiro é deixar de o ser. que nome dar a uma pátria que “mutila” o filho e ainda por cima o exibe mutilado?

não penso que a empresa autora da nova imagem do município tenha qualquer intenção de transmitir a mensagem da morte dos moliceiros. mas quem a avaliza e aprova deve ter consciência do que está a aprovar e a fazer.

se já é difícil manter viva a tradição com os parcos apoios das entidades responsáveis, aos donos dos moliceiros que ainda concorrem nas regatas à vela, o que dirão quando virem este símbolo?

assim vamos por cá

postais da ria (34)


perdidamente

perdidamente

inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando

a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer

dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu

sou eu

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(ria de aveiro; torreira)

crónicas da xávega (23) – dos homens do mar


agostinho trabalhito e massa

agostinho trabalhito e massa

fizeram a escola sentados
nos bancos de areia rente ao mar
aprenderam cedo a força das ondas
o gume afiado do norte pela madrugada
o salgado sabor dos dias amargos de pouco pão

a escrita que conhecem é sobre água
nem por isso efémera
que de geração em geração
de homem para homem
como se ontem fosse hoje e sempre
o mar é pauta onde ritmos e pausas
são marcados pelas notas das ondas
onde o maestro é o arrais

falo do mar
da música fora dos búzios
dos artistas
das companhas da xávega

bota que chega de palavras

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(torreira; companha do marco; 2011)

postais da ria (33)


o fim está tão próximo quanto a vitória

o fim está tão próximo quanto a vitória

nada dizer

nem todos os dias são
muitos haverá em que
tu sabes
não pode ser
sempre nem nunca

sê no dia em que não
o mesmo que noutro dia qualquer
a razão encontra-la-ás se
razão houver mas
não será por isso

pelo que és
pelo que sonhas
pelo que queres que seja
vai

porque nada é o que

a vitória está tão próxima como o fim

a vitória está tão próxima como o fim

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

como se lágrimas pelo rosto


que dizer destes dias?

que dizer destes dias?

quisera entre as mãos
prender a água
lavar o rosto
como se terra
ávida de vida

gotas de outros rios
correndo pelas nuvens
deste tempo triste
onde mágoas à tona
retornam

quisera
como se lágrimas pelo rosto

mas elas teimam em não cair
o rosto atravessa seco os dias
as mãos agarram o ar vazias

quisera não deixar lágrimas
por herança
de tanto nas mãos as sentir

quisera
como se lágrimas pelo rosto

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(campos de ereira, 2008)

pedras haja


caminhar por aí

caminhar por aí

perdi a conta às pedras
com elas um caminho
diverso do inicial
como tudo
entre rascunho e obra
no meio à frente em torno
pedras sempre
caminhos

impossível
escolher o escolho
imprevisto

antes da vida a água
antes da água a pedra
primordial
enorme em torno do sol
sequiosa solitária a ser

perdi as pedras nas contas
desmemoriado caminho

pedras haja

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(coimbra, 2014)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)

postais da ria (31)


POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)

ei-los que chegam como se não

ei-los que chegam como se não

viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns

títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim

não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?

pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes

ahcravo_DSC_6270_ribeira de pardelhas

luminosamente vêm chegando

(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)