para o miguel portas


a tristeza chega

súbito

é chuva no rosto

escorrendo

amarguras

ausências

 

pouco basta para

somos tão frágeis

tão uns dos outros

 

a tristeza chega em abril

mas floresce

em qualquer mês

onde

uma ausência

se fez sentir

 

crescemos

que se cresce sempre

com homens como tu

que são nós

mesmo depois de

 

não há palavras

tristes

há tristeza

nas palavras

onde existes ainda

o meu povo


a roupa a secar algures

uma ida à horta

por umas couves

uma vida assim

entre a casa e a lavoura

com domingos de missa

procissões de santos

 

um copo na mesa

e o homem

à espera

os filhos criados

os netos com eles

longe

que aqui não

 

pelas ruas da aldeia

mais que o alguidar

carrega os anos

que por aqui anda

(não sei se ainda)

 

há dias de festas

de feiras

(de compras em conta)

de vendedores à porta

que ainda fiam

e confiam

 

há gente assim

aqui:

é o meu povo

em abril a 25


em abril a 25

voámos de novo
numa madrugada clara
libertos de vendas
grilhetas e guerras

sonhámos um país novo
um país puro e limpo
feito de manhãs eternas

quisemos a utopia
guardada tantos anos
nos baús de acesso restrito

voámos
demos as mãos
mais que amigos
dissemos: irmãos

corremos
chorámos
beijámos

dissemos:
a paz
o pão
habitação

continuamos
porque ainda se não cumpriu
aquilo com que sonhámos

em abril a 25

um taxista para a história


 

queria-te dizer

fernando

a ti que tantos foste

que isto de uma pessoa

andar para aqui a escrever

num país de poetas

não é fácil

 

que ele

há palavras, há

encontrá-las é que é o diabo

fazer delas um poema

é um drama

e não é

porque afinal

não é poema

é isto

 

uma imagem

a tua

umas palavras

minhas

 

e o vício

sim o vício

de dizer coisas

mesmo sem sentido

como estas

 

esquece

daqui a uns tempos

ninguém se lembrará de mim

nem sequer do monólogo

que tive contigo

já de mármore em oeiras

a do isaltino

ele sim

lembrado pela sua grande obra

 

e um humilde taxista

algures

xávega_naufrágio na praia de mira



nelson monteiro_dono da companha

o barco de mar que se afundou_ sr. dos aflitos

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2012/04/22/embarcacao-de-pesca-tradicional-virou-se-em-mira-com-cinco-tripulantes-a-bordo

O comandante da Capitania do Porto de Aveiro,  Coelho Gil, disse que a embarcação Nossa Senhora dos Aflitos virou-se cerca  das 11:00, junto à praia.

Segundo a mesma fonte, os tripulantes “chegaram à costa pelos próprios  meios”, não havendo ninguém em perigo.

Por volta do meio-dia, os tripulantes, apresentando “pequenas escoriações  e uma dose de hipotermia” dirigiram-se para o hospital de Coimbra a fim  de receber tratamento.

Coelho Gil adiantou ainda que a embarcação tinha sido dada como perdida.

Segundo fonte do Centro de Busca e Salvamento, após o naufrágio foram  enviadas para o local uma embarcação da Polícia Marítima e outra do Instituto  de Socorros a Naufragos, mas os tripulantes já tinham chegado a terra pelos  seus meios e com o auxílio de uma mota de água.

A arte da xávega é um processo de pesca tradicional feita com pequenas  embarcações em que as redes são lançadas ao largo da praia e depois puxadas  para terra por tratores.

(ao telefone com um arrais da praia de mira, soube que o barco meteu água ao apanhar a primeira pancada de mar e que na segunda voltou a acontecer o mesmo, tendo ido ao fundo)

voa


 

voa

 

 

o céu não

é onde dizem

é onde

quiseres que seja

 

estende os braços

não há vazios

em torno de ti

apenas outros braços

ignorando também

que podem voar

 

é tempo de roda

e saltar à corda

escorregas e malha

e gargalhadas soltas

 

voa

 

(skim board; buarcos)