viveu a toda a vida
ao sabor da ria
colhendo moliço
quando moliço havia
vítima do progresso
aguarda pacientemente
ser vítima do tempo
ou, quiçá, da mão humana
canta o moliceiro
o seu
canto do cisne
(murtosa; cais do bico; 2010)
sou o que andou no bacalhau
conheceu terras de mais peixe
e arriscou a vida no mar
na fuga de a perder em terra
com mulheres crianças
bois
reparto do corpo o esforço
o suor
e o mar cresce dentro
de mim
* a participação dos pescadores em campanhas de pesca de bacalhau livrava-os do serviço militar, ou seja, da ida para a guerra colonial
furando o ritmo das ondas
o barco entra no mar
num orgasmo de espuma
ficam na areia
os gritos
sempre o mesmo
nem sempre os mesmos
sempre diferente
cada vez menos
até quando ?
furando o ritmo das ondas
o barco entra no mar
num orgasmo de espuma
ficam na areia
os gritos
sempre o mesmo
nem sempre os mesmos
sempre diferente
cada vez menos
até quando ?