salgam-se os olhos
rega-se o rosto
salga a terra o ódio
semeia a morte
vertical o sol na salina
e uma flor nasce
(mexer; armazéns de lavos; 2017)
em louvor da epifania
a epifania chegou rente
à hora de jantar
torradas iogurte e fruta
um chá a terminar
a epifania era culta e bela
sábia nas artes de amar
foi longa e breve a noite
epifania invulgar
perguntei se voltaria
havia um poema a acabar
era só uma epifania
mas disse-me que ia tentar
(sal do mar; armazéns de lavos; mexer; 2017)
não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos
a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada
não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta
os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo
some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem
subtrai-se humanidade
onde o homem
só vejo a besta
(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)
tantos anos
tantas vidas
tanto amor
casas ruas
cidades
um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar
cidades
casas ruas
tanto amor
tantas vidas
tantos anos
mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades
a apagar a memória
a história
chamam agora limpar
assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)