abril, a 25

abril, a 25


fotos de datas diversas, publicadas nos dias 24 a 28 de abril de 2021

aqui termina esta série de fotos, num ano em que não participei numa manifestação.

termina com a foto de uma criança, que hoje já andará na escola.

é delas o futuro, a nós resta-nos deixar o testemunho e assumir que é responsabilidade nossa o não ser melhor o seu presente.

vejo por aí muita gente a criticar a juventude e apetece-me comentar: mais uma geração de órfãos

40 anos


40 anos
(princípio anos 80; café piolho; coimbra) – foto de um amigo norueguês
quarenta anos quantos
quilómetros são

os nomes somam-se
e desaparecem como os amores
os poemas os livros as paixões

as febres de todas as noites
menos às segundas
o porquê sabe quem lá andou

os cafés os cinemas o teatro
a música e um amigo 
ao ouvir as palmas no fim do concerto
a perguntar 
a quem bate esta gente palmas
ao autor ou ao intérprete

quarenta anos 
quantos quilómetros são

manel ari pedro bustorff elisa nicolau
mila saldanha vasquinho virgilio luís miranda
ml e o boi negro do júlio fortemente
aurelino paulo archer bandeirinha
os galifões pinto vitor gordo calado
todos os que não lembro 
e os que são para esquecer

o dr joaquim namorado 
o professor doutor orlando de carvalho
porque não se a voz ainda a oiço
o soveral a centelha

a rua das matemáticas
o 40 a fenda os folhetos os livrinhos
as sessões ao vivo e ao que viesse

tropical piolho moçambique pigalle
praça da república sempre
etc barmácia pinto douro
faculdade de ciências de letras
de dia de noite a qualquer hora

as letras meu deus e as ciências
que não eram exactas mas eram

coimbra até às tantas 
tantas que nem sei quantas

quarenta anos
quantos quilómetros foram
digam-me minhas santas

(escrito às 02h de 16/03/2021, na figueira da foz)

25 de abril de 2020_5

25 de abril de 2020_5


Canto Moço
 
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Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
 
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
 
Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
 
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
 
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
 
Fresca brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.
Zeca Afonso
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memórias da minha coimbra (VIII)


o kim dos ossos

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coimbra; praça do comércio; 2009

o tempo da fast food ainda não tinha chegado a coimbra. a tasca do quim, como era conhecida, era famosa pelos ossos de espinhaço de porco cozidos e condimentados à moda do quim.
foi a última tasca de coimbra. tinha duas portas de entrada: a da esquerda dava para a mercearia e da direita, uma porta de duas folhas de vai e vem, levava-nos para o interior da tasca. meia dúzia de mesas, os pipos de encostados à parede com as torneiras prontas a debitar.
começava-se normalmente com uns cricos (berbigões) abertos à quim e depois continuava-se com os famosos ossos e outros petiscos. cada um servia-se do vinho dos barris que ficavam atrás da mesa e ia marcando com um traço cada copo que bebia.
no fim éramos nós, ainda somos apesar de já não ser tasca, que dizíamos o que tínhamos consumido e assim nascia a conta.
quantas noites de violas e guitarras e poesia …..
na tasca do quim não se cantava fado de coimbra, cantava-se zeca afonso, adriano, fado de lisboa e dizia-se poesia.
conviviam estudantes, trabalhadores, licenciados…. era um sitio à parte na cena coimbrã.
encastrada na parede exterior havia uma pedra que servia de banco para duas pessoas, um belo dia sentei-me ao lado de um velhote que, pensativo, seguia com os olhos as jovens estudantes que passavam. de repente volta-se para mim e diz:
– sabe o que me custa? um gajo envelhece e elas continuam a passar sempre novas.
era assim que se aprendia a estar vivo na tasca do quim