há moliceiros na ria


 

há moliceiros na ria

 

portugal

ainda há moliceiros na ria

 

portugal

há homens que te amam

mais que a si mesmos

 

portugal

a dignidade de um homem

é mais forte que a força do dinheiro

 

portugal

ainda há homens aqui

homens que nada devem

e que tudo dão por ti

 

portugal

há portugueses

aqui

num recanto

chamado ria de aveiro

 

portugal

ainda há moliceiros na ria

homens e barcos

barcos e homens

 

portugal

feito assim a navegar

velas ao vento

dizendo-se ao mundo

o ser diferente

 

portugal

são estes os teus filhos

amam-te

o desígnio


regata torreira/aveiro 2011

 

conquistar os dias

um a um

vencer-se

para vencer

erguer-se

 

falo de homens

dos que muitos

a bordo de barcos nasceram

neles foram criados

e homens se fizeram

 

falo de moliceiros

nome dos homens

e dos barcos

que ambos se confundem

na labuta e no tempo

 

conquistar o futuro

sendo no presente

esse o desígnio

o moliceiro é bandeira


à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro

 

unem-se os homens

dão-se as mãos

fazem-se nós

limpa-se a sombra

renasce-se

 

o moliceiro

é bandeira

amor paixão

modo de vida foi

de memórias pleno

mais que eles

é todos os que antes o foram

 

uniram-se os homens

cuidem-se os que

pergunta estúpida?


é assim um moliceiro

 

 

escuta

ouves o rumor das águas

o quebrar das ondas

no casco

as velas pandas batendo

de tanto vento

 

o vento sopra do norte

o barco voa

a meta está próxima

chega em primeiro

ganhou a regata

 

depois

depois houve que o vender

os apoios não chegavam

para o manter

 

depois

depois não querem que haja regatas

 

é esta a história

de como os moliceiros

por falta de apoio

vão desaparecendo

 

por vezes pergunto-me

porque é que no brasil em vez

de casas tradicionais portuguesas

não construíram moliceiros

 

não queremos que tudo acabe assim


o barco moliceiro, princesa da ria

 

de todos os barcos que sulcaram, ou sulcam ainda, a ria o moliceiro é sem dúvida o mais belo. atrever-me-ia a dizer que é em simultâneo uma obra de arte e um instrumento de trabalho.

perfeitamente adaptado ao trabalho na ria, em que a as águas de pouca profundidade são predominantes, o moliceiro é um barco de fundo chato com um pontal de 40 a 45cm, navegando, quando carregado, com os bordos ao nível da água.

 

o facto de o pontal (distância entre o convés/bordo e o fundo) ser tão pequeno, facilita o trabalho dos moliceiros que, para arrancar o moliço do fundo, arrastavam os ancinhos os quais, depois de carregados tinham de ser erguidos e despejado o moliço dentro do barco. quanto menor o pontal, menor o esforço dispendido.

se na sua construção de base se encontra uma adaptação ao meio onde se move, e ao fim a que se destina, há porém factores que nada tem de utilitário: a forma da bica da proa e os painéis pintados à proa e à proa.

o que é que terá levado a que o moliceiro tenha uma bica da proa tão curva? Tão semelhante à da barca de mar (da arte xávega)? não há qualquer finalidade utilitária nestes pormenores, são puros adornos.

com um comprimento entre 14,50m e 15m (Drª Ana Maria Lopes – Moliceiros : A Memória da Ria) e uma boca entre os 2,50m e os 2,60m, o moliceiro é um barco de linhas esbeltas e extremamente elegantes: uma jovem princesa que se passeava pela ria.

 

é esse o seu encanto, a causa da paixão de todos os que nele trabalharam, passearam ou meramente contemplaram. é impossível ficar indiferente a uma princesa. por amor a ela às regatas todos se entregam, sem contrapartidas que não a emoção.

os moliceiros e apanha do moliço

de acordo com “ Relatório Oficial do Regulamento da Ria”, de que é co-autor o então capitão-tenente jayme affreixo, publicado em 1912, os números relativos à apanha de moliço eram os seguintes:

 

 1.883 …. 1.342 barcos

 1889 …. 1.749 barcos —— 957 moliceiros ——- 2.687 lavradores

 1911 …. . 1.054 barcos —– 875 moliceiros ——- 1.633 lavradores

 

“A estatística de 1.883 dá 158:000$000 réis para o valor anual da colheita ao preço médio de 1$250 réis a barcada.

 

o cálculo do seu rendimento pode fazer-se de acordo com o seguinte modo:

“Existem 1.500 barcos (aos 1.054 registado na capitania acrescenta 400 a 500 não registados), cada um dos quais, nos 3 meses de Agosto, Setembro e Outubro, à razão de uma barcada por dia de trabalho, colhe seguramente 70 barcadas, cujo preço médio não é inferior a 1.$800 réis; e, no resto ano, à razão de uma barcada por 4 ou 5 dias, colhe 30 barcadas ao preço médio de 4$000 réis. Igualando porém este preço ao anterior, para desconto de barcos de lavradores que nesta segunda época não exercem a apanha temos: 1.500 barcos, com 100 cargas cada um, a 1$800 réis, ou seja um rendimento anual de 2.700$000 réis”.

ainda de acordo com o mesmo relatório:

 

“ Em 1907 e 1908 o rendimento total da produção marinha da ria de Aveiro é:

 

Peixe ………. …………………………54.000$000 réis

Peixe de viveiros ………………….……3.000$000 réis

Algas (moliço) valor superior a …….. 270.000$000 réis

Juncos, valo superior a ………. 73.000$000 réis

Total ………………………………… 400.000$000 réis”

 

por aqui se vê o valor que representava o moliço na riqueza produzida pela ria.

câmara de aveiro cancela regata de moliceiros 2012


da esquerda para a direita: miguel matias (proprietário do pardilhoense), joaquim ligeiro (moliceiro), zé rito (mestre construtor de barcos e moliceiro); zé rebeço (moliceiro), zé oliveira (pintor), necas lamarão (pintor e pai de zé oliveira), emanuel oliveira (pintor), manuel valas (moliceiro)

indignação hoje na torreira

todos os anos realiza-se a maior regata de moliceiros da ria de aveiro, ligando a torreira a aveiro, patrocinada pela câmara municipal de aveiro, integrando a “festa da ria”.

este ano foi marcada para o próximo dia 14 de julho e todos, os cada vez menos, proprietários de barcos moliceiros, iniciaram as despesas necessárias à participação na regata: pintura e reparações, onde gastaram sempre para cima de 1.000 euros.

qual não é o espanto quando hoje, dia 6, no estaleiro do mestre zé rito, ao ler o correio da manhã, o pintor zé oliveira, depara com a seguinte notícia (meio disfarçada): “não vai ser possível realizar as regatas porque não há verbas”, explicou maria da luz nolasco, vereadora da cultura (câmara municipal de aveiro) …….

mas que verbas srª vereadora? os donos dos moliceiros já as dispenderam, o custo total com a regata de moliceiros – feito no estaleiro com os moliceiros e mestres presentes – foi estimado, por cima, em 8.000 euros, tendo em conta os barcos que participariam na regata, os subsídios a atribuir e os prémios a distribuir.

será que a cultura não vale 8.000 euros? o que é a festa da ria sem a regata de moliceiros? quem vai apoiar os proprietários que já realizaram a despesa? que falta de consideração pelos homens da ria a srª vereadora demonstrou ao não os contactar com tempo e fazê-lo através de uma notícia de jornal, num parágrafo perdido no meio?

o moliceiro é o mais belo barco do mundo, aveiro apregoa ser a pátria do moliceiro e depois…. depois diz que não há dinheiro para a regata.

acabar com a regata é ajudar a acabar com os poucos moliceiros que restam, menos 3 este ano que no ano passado, é matar o ícone de todo uma região.

a respeito de camões, escreveu almada negreiros, “este é o país que enche a boca de camões e onde camões morreu de fome”. volta almada e diz de aveiro o que disseste do país.

a pouco e pouco matam a história deste povo e um povo sem história, não existe. façam-no, se assim o querem, mas assumam-no, não sejam hipócritas.

uma festa da ria sem regata de moliceiros é uma mesa posta onde não é servida qualquer refeição.

como diriam os mais velhos “haja respeito”, que esta gente merece, é dela a bandeira que ergueis bem alto, enquanto calcais quem a fez. é este o vosso modo de estar.

mas os moliceiros são gente e de bem, por isso sentem-se e farão sentir que não são merecedores desta prepotência e ignorância.

há lama basta no leito da ria, mas também há muita fora dela em bons gabinetes.

a madrasta dos moliceiros


torreira; 2008

torreira; 2008

o lameirense foi, talvez, o moliceiro mais fotografado da ria, quer pela sua beleza, quer pelo belíssimo ancoradouro privativo que lhe construíram.

um ano houve em que a filha de um emigrante nos eua, pintora, se ofereceu para pintar os painéis, ficaram uma maravilha.

pois bem este barco, com a minha sombra nele inscrita, acabou por apodrecer no final do ano passado.
os moliceiros estão acabar na ria e a câmara municipal da murtosa, que se reclama “pátria dos moliceiros”, assiste impávida e serena ao seu desaparecimento. talvez com o intuito de um dia lhes fazer um museu.

somos melhores a cuidar dos mortos do que a manter os vivos.

madrasta dos moliceiros serás, pátria….. deixa-me rir

torreira; 2008