quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava

quando o mar trabalha na torreira_flávia


sou
a que nunca ficou em casa
nunca foi ao mar

sou
a que ajuda a empurrar o barco
a que o espera em terra

sou
a que escolhe o peixe
e entre duas picadas de peixe aranha
se levanta
e nasce na areia um outro rio

sou
a mãe
a mulher
a filha
a viúva

sou
a mulher da arte
que a arte não lembra

(torreira; anos 90)