o meu amigo joão manuel brandão


a ria no rosto

joão manuel brandão

joão manuel brandão

escrevo o teu rosto
sem palavras
vejo-te para que te
saibam e oiçam

não há silêncio na ria

não sei como dizer-te
sinto-te
e semeio-te como és

a beleza da ria
é o retrato do teu rosto

joão manuel brandão

(torreira; cabrita alta)

os moliceiros têm vela (110)


carta em branco

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escrevi uma carta em branco
com destinatário e remetente

até hoje
não recebi qualquer resposta
mas tenho a certeza de que
a escrevi

não me entenderam com certeza
mas também não volto a insistir

missão cumprida

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (109)


estorvos

a espera

a espera

estorvos

de tão antigos
são do silêncio senhores
donos das vozes caladas
murmuradas não ouvidas
habitadas habituadas

não têm a idade que têm
são muito mais velhos

existem para que nada
mude
tal lhes basta para serem

estorvo

em 2008

quantos já desapareceram?

(murtosa, regata do bico; 2008)

crónicas da xávega (65)


momentos de mar

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a espuma adormece na areia
o cansaço de tanto andado

uma gaivota deixa o bando
primeiro passo para a liberdade

ao longe um barco acena
promessas de viagens a fazer

no céu uma nuvem brinca com o sol
e eu perco-me de tanto infinito

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(torreira; companha do marco; 2012)