os moliceiros têm vela (426)


ninguém mata o que foi

torreira; s. paio; 2010
guardo o tempo no fundo
dos olhos


decoro com palavras
as imagens


nascem rostos nomes
aconteceres


não invento passados
para ser hoje


caminho leve de ter sido
porque inteiro


sou o que o tempo conta
não o que contam


abraço o sol e a noite
os dias cheios


ninguém mata o que foi

“O Deserto Tatuado” de richard shelton


O Deserto Tatuado


seja qual for a página em que o livro se abra
eu leio-o
ajoelhado ao lado de uma cama qualquer


podiam ter-me baptizado
numa banheira e terem-me posto asas em segunda mão
asas de leilão
não me teria importado


mas os deuses revelaram-se
grotescos desfilaram diante de mim
como se numa inspecção com gaze suja
sobre os olhos
quando a estrada se bifurcou
seguiram em ambas
as direcções disfarçando-se
de lugares que eu não conseguia encontrar
com as suas penas transformadas em samambaias e quando
os alcancei eram paisagens distantes
deslizando através dos meus dedos e deixando
um estranho cheiro nas minhas mãos


enquanto o velho chapéu debaixo da torre repetia
a mesma história e uma boca desdentada
ensaiava um esgar
o de cara de porco
começou a comer os próprios dedos
e então fugi


procuraram no vazio que deixei
mas encontraram-me de novo
no quarto dos fundos do andar de cima de outra casa
com uísque ressacado martelando na minha língua
e novamente saltei pela janela e fugi
escorreguei por uma árvore debaixo de chuva gótica


devia estar meio louco
quando parti assim sozinho de bicicleta
pedalando em direcção aos trópicos levando comigo
um medicamento para o qual ninguém achara ainda
a doença e esperando
chegar a tempo


atravessei uma aldeia de papel dentro de uma cúpula de vidro
onde os exploradores pela primeira vez encontraram
o silêncio e o ensinaram a falar
onde os velhos ficavam sentados à porta
de casa matando sem piedade a areia


irmãos
gritei
digam-me quem levou daqui o rio
onde vou achar agora um sítio bom para me afogar.


lentamente eles ergueram o olhar
este é o deserto tatuado disseram-me
tudo o que vai sobreviver será
a tua memória
depois entraram nas suas casas em chamas
e fecharam as portas


fiquei na noite desencantada
com o meu pulso latejando como um bilhete quase
a ser rasgado enquanto as montanhas experimentaram
todas as posições possíveis e, finalmente,
dormiram de costas voltadas
umas para as outras


quando encontrei o rio ele era
o que eu esperava apenas um velho muro deitado
coberto com fotos


místicos mortos enterrados nas margens
cada um com seu telefone ao lado reconheci
o local conhecia todas as passagens
secretas deve de ter sido aí
que nasci


os olhos gentis do rio
olharam para cima sem censura e aqueles passados
flutuantes falaram comigo
isto é cremação pela água
disseram
nós que fomos
aqui queimados regressaremos sem cinzas
no som do toque de sinos de cera
e no testemunho de árvores sem boca


enquanto eles falavam o céu chegou
e vi a pele perfeita da luz
o vento empurrava as montanhas
a uma velocidade incrível e de repente
foi manhã depois do nada


o meu fiel servo Pain
que me seguiu por todo este caminho
aproximou-se com um presente
um morcego adormecido empanturrado de sangue


anda sempre comigo
como um aviso para aqueles que tentam fazer-me retornar
vejam direi
mostrando-o
nós sobrevivemos a mais uma noite

 *******

 The Tattoed Desert


at whatever page the book fell open
I read it
and knelt beside every bed


they could have baptized me
in any tub and fitted me with second hand
wings at the auction
I wouldn't have minded


but the gods turned out to be
grotesques they paraded before me
as if for inspection with dirty gauze
over their eyes
when the road forked they took
both ways they disguised themselves
as places I couldn't find
their feather turned into ferns and when I
reached out to them
they were distant landscapes
moving through my fingers and leaving
a strange smell on my hands


while the old hat under the tower was telling
the same story and the toothless mouth
was getting ready to grin
the one with a face like a pig
began to eat his own fingers
and then I ran away


they initialed the space I left
empty but they found me again
upstairs in the back bedroom of another house
with whisky hitting my tongue
like a hammer
and again I climbed out the window and slid
down a tree in the gothic rain


I must have been almost crazy
to start out alone like that on my bicycle
pedaling into the tropicis carrying
a medicine for which no one had found
the disease an hoping
I would make it in time


I passed through a paper village under glass
where the explorers first found
silence and taught it to speak
where old man were sitting in front
of their houses killing sand withou mercy


brothers I shouted to them
tell me who moved the river
where can i find a good place to drown


slowly they raised their heads
this is the tattooed desert they told me
all that will survive of it will be
what you remember
then they went into their flaming
houses and closed the doors


and I rode on through the disappointed night
with my pulse beating like a ticket about
about to be torn while the mountains tried
every possible position and finally
slpet with their backs to one another


when I found the river it was
what I expected just an old wall lying down
covered with pictures


dead mystics were burried on its banks
each with his telephone beside him I recognized
the place I knew all the secret
passages it must have been
where I was born


the gentle eyes of the river
looked up without reproach and those
floating past spoke to me
this is cremation by water they said we who are
burned here rise up without ashes
we are repeated
in the sound of wax bells ringing
and the testimony of mouthless trees


while they spoke the sky arrived
and I saw the perfect complexion of light
the wind was blowing the mountains away
at an incredible speed and suddenly
it was morning after nothing


my faithful servant Parry
who had followed me all this way
approached holding out a gift and I took it
a sleeping bat gorged with blood


all day i will carry it with me
as a reminder to those who try to take me back
see I will say
holding it up to them
we have survided another night