postais da ria (379)


bom ano

corrida de chinchorros; s. paio; 2012
 queria falar-te dos dias
 do tempo cortado às fatias
 
 invenção dos filósofos padeiros
 que pão inteiro era coisa de povo
  
 queria falar-te dos anos  
 e outros pedaços maiores do tempo
  
 que nem esse para todos igual é
 falo-te da fome da doença da miséria
 de como crescem longe e perto
 escondidos ou mostrados consoante
 a notícia o exige não o ser homem
  
 queria falar-te dos dias quando o ano
 está a acabar e dizer-te que tudo
 está diferente e tudo ficou na mesma
  
 queria dizer-te que não mudei sou eu
 o mesmo de sempre desde que comecei
 a ser quem sou a ter o meu tamanho
  
 queria dizer-te que podes contar comigo
 quando os braços se juntam e é justa a causa
  
 queria dizer-te que não estou a teu lado
 nem calarei a mentira a injustiça o cinismo
  
 oiço bem vejo bem sei o que quero
 bom ano 

postais da ria (377)


sei dos dias pela luz


torreira; corrida de chinchorros; 2014
 sei dos dias pela luz

 em todos vos amo
 sem saber de datas
 nem efemérides
  
 em todos todos vos quero
 sem destrinça
 em todos os dias todos são
  
 sei dos dias pela luz
 
 dos que esperam  
 ser no calendário dia  
 digo que cegaram
 
 voo para o sol 

os moliceiros têm vela (426)


ninguém mata o que foi

torreira; s. paio; 2010
guardo o tempo no fundo
dos olhos


decoro com palavras
as imagens


nascem rostos nomes
aconteceres


não invento passados
para ser hoje


caminho leve de ter sido
porque inteiro


sou o que o tempo conta
não o que contam


abraço o sol e a noite
os dias cheios


ninguém mata o que foi

postais da ria (365)


o silêncio é uma vela

torreira; regata do s. paio; 2020
começas a escrever os dias
a repetir a palavra ontem
cada dia mais vazia de vida
mais cheia de memória


em ti habitam os que partiram
em ti se demoram
no sobrevoar da ria tão deles


olhas como te ensinaram
e lembras os nomes os rostos
ainda ouves as vozes


o silêncio é um barco
e tu a vela que o tempo enche