falámos então do silêncio
da impotência
da frágil solidez aparente
os dias são de temor
os homens vestiram-se de vidro
o vidro de areia se fez
tudo se desnudou nas escuridão
(enfeitar; sal do mar; armazéns de lavos; 2017)
não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos
a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada
não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta
os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo
some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem
subtrai-se humanidade
onde o homem
só vejo a besta
(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)
tantos anos
tantas vidas
tanto amor
casas ruas
cidades
um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar
cidades
casas ruas
tanto amor
tantas vidas
tantos anos
mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades
a apagar a memória
a história
chamam agora limpar
assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)
espírito criativo
nunca tive
não sei o que é
por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos
fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo
no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo
meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois
atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
plantei uma flor
no mar
o genocídio continua em gaza
o genocídio continua em gaza
na areia a meu lado
os teus olhos
procuraram a flor
sorriram ao vê-la
a guerra continua na ucrânia
a guerra continua na ucrânia
por entre as ondas
deste-me um beijo
a fome e a guerra em áfrica
a fome e a guerra em áfrica
depois acordei
e só me lembro
deste sonho
mediterrâneo é nome de cemitério
mediterrâneo é nome de cemitério
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)