a beleza do sal (202)


não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos

a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada

não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta

os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo

some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem

subtrai-se humanidade

onde o homem
só vejo a besta

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)

a beleza do sal (201)


tantos anos
tantas vidas
tanto amor

casas ruas
cidades

um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar

cidades
casas ruas

tanto amor
tantas vidas
tantos anos

mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades

a apagar a memória
a história
chamam agora limpar

assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)

a beleza do sal (200)


espírito criativo
nunca tive
não sei o que é

por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos

fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo

no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo

meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois

atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)

a beleza do sal (199)


plantei uma flor
no mar

o genocídio continua em gaza
o genocídio continua em gaza

na areia a meu lado
os teus olhos
procuraram a flor
sorriram ao vê-la

a guerra continua na ucrânia
a guerra continua na ucrânia

por entre as ondas
deste-me um beijo

a fome e a guerra em áfrica
a fome e a guerra em áfrica

depois acordei
e só me lembro
deste sonho

mediterrâneo é nome de cemitério
mediterrâneo é nome de cemitério

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)

a beleza do sal (198)


eram três velhos magros

o primeiro trazia uma vela
o segundo uma bola
o terceiro uma guitarra

eram três velhos magros

à sua frente uma criança
fugia e a cada passo mais
se afastava dos três velhos

são três velhos magros

à sua frente um homem
foge ainda foge

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)