salgam-se os olhos
rega-se o rosto
salga a terra o ódio
semeia a morte
vertical o sol na salina
e uma flor nasce
(mexer; armazéns de lavos; 2017)
em louvor da epifania
a epifania chegou rente
à hora de jantar
torradas iogurte e fruta
um chá a terminar
a epifania era culta e bela
sábia nas artes de amar
foi longa e breve a noite
epifania invulgar
perguntei se voltaria
havia um poema a acabar
era só uma epifania
mas disse-me que ia tentar
(sal do mar; armazéns de lavos; mexer; 2017)
se pequeno é o país
serem de palavra os homens
era grandeza diversa
conquistámos a liberdade
de ser inteira escrita
dita a palavra assumida
nas brancas paredes
as palavras inscreveram
os dias sem medo
cinquenta anos depois
desbotadas paredes
envergonhada palavra
o pequeno país
de pequenos homens
é um circo falido
(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)
não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos
a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada
não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta
os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo
some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem
subtrai-se humanidade
onde o homem
só vejo a besta
(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)