a beleza do sal (202)


não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos

a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada

não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta

os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo

some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem

subtrai-se humanidade

onde o homem
só vejo a besta

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)

a beleza do sal (201)


tantos anos
tantas vidas
tanto amor

casas ruas
cidades

um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar

cidades
casas ruas

tanto amor
tantas vidas
tantos anos

mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades

a apagar a memória
a história
chamam agora limpar

assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)

a beleza do sal (198)


eram três velhos magros

o primeiro trazia uma vela
o segundo uma bola
o terceiro uma guitarra

eram três velhos magros

à sua frente uma criança
fugia e a cada passo mais
se afastava dos três velhos

são três velhos magros

à sua frente um homem
foge ainda foge

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)